logo-branco.png

15 de julho de 2024

Boas biografias têm contexto histórico e foco no personagem – conheça cinco exemplos

Ilustração inédita de Luciano Martins para coluna de Carlos Stegemann sobre biografias

Biografias são um gênero em alta no gosto dos leitores brasileiros, embora ainda pouco representativas no mercado editorial. Mas seguirão crescendo, porque a qualidade de quem as produz tem melhorado e os perfis dos biografados contribuem muito.

Uma boa biografia tem entre suas principais virtudes trazer valiosas e amplas informações do contexto histórico, de quem viveu no entorno do personagem em foco, iconografia inédita e muitas referências bibliográficas.

Minhas preferidas: a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas (Cia das Letras), um relato incomparável, seja pela qualidade do texto ou pela minuciosa apuração; ‘Rondon’, de Larry Rohter, ex-correspondente do New York Times no Brasil, aquele que revelou (o que já era público e notório) a preferência do então presidente Lula pela cachaça e quase foi expulso do país por isso. Vale dizer: ‘Rondon’ (Objetiva) saiu primeiro nos Estados Unidos e depois foi traduzido para o português; e, finalmente, ‘A viúva Clicquot’, da norte-americana Tilar Mazzeo (Rocco), sobre a jornada da mulher que fundou o império do lendário champanhe Veuve Clicquot.

Duas biografias recentes

Recomendo duas leituras recentes, tão prazerosas quanto agregadoras – ‘Dupla exposição’ (Ediouro), sobre Sérgio Porto, jornalista, humorista, escritor e roteirista de meteórica passagem pela vida, mas com uma herança ainda distante de ser mensurada na devida proporção.

O autor, jornalista Renato Sérgio, não cai na tentação da narrativa cronológica e privilegia uma visão humana do homem que criou personagens como Stanislaw Ponte Preta (seu alter ego) e Tia Zulmira. Um Sérgio Porto tão genial quanto infiel, ora criativo, ora depressivo.

Aos amantes do blues, “A música do diabo” (Belas Letras), dos norte-americanos Bruce Conforth e Gayle Dean Mardlow, desvenda o mistério biográfico de Robert Johnson, numa pesquisa que consumiu – acreditem – 50 anos de trabalho!

Uma imersão que desmente lendas repetidas desde o início do século XX, pelos aficionados do gênero musical que deu origem ao rock’n roll. Afinal, Johnson “vendeu a alma ao diabo” em troca de seu talento incrível? A dupla de autores vasculhou milhares de artigos de jornais, censos demográficos, notas fúnebres, certidões de nascimento, fez centenas de entrevistas, comparando, desmentindo e validando. O acervo de imagens também exibe a realidade de um país e de um povo que preserva sua memória.

Para concluir, a inspirada frase de Lobão, usada por Renato Sérgio no livro sobre Porto – e que diz muito sobre biografias, em especial as autorizadas, sob encomenda e para a conveniência do biografado: “A verdade é uma versão que sobreviveu”.

Até breve!


Carlos Stegemann, escritor por ofício, leitor por compulsão.
A Coluna Literária é ilustrada por Luciano Martins.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

Anúncios e chamada para o mailing