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15 de julho de 2024

Atos golpistas em Brasília delimitam de vez quem está dentro e quem está fora do jogo democrático

Desde que Jair Bolsonaro (Partido Liberal) perdeu as eleições para Lula (Pt) no segundo turno da disputa presidencial, havia a dúvida no ar sobre a possibilidade de um episódio similar à invasão do Capitólio por militantes trumpistas para impedir a proclamação da vitória de Joe Biden sobre Donald Trump na eleição dos Estados Unidos, em janeiro de 2021. O tal “capitólio brasileiro” veio no domingo, exatamente uma semana após a posse de Lula como presidente do Brasil.

Não há palavras fortes o suficiente para descrever a baderna, o vandalismo, a falta de respeito às instituições e símbolos nacionais como são o Congresso, o Palácio do Planalto e a sede do Supremo Tribunal Federal. As manifestações em frente aos quartéis em todo o país desde a vitória petista na eleição presidencial expuseram seu lado mais radical e destrutivo ao sitiar os endereços do poder constituído. Quando um grupo radicalizado age em nome do povo e tenta conseguir à força o que o voto do mesmo povo lhe negou, isso tem um nome que não podemos mais deixar de usar: fascismo.

Não significa dizer que os 58 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro sejam fascistas. Mas é cada vez mais inegável que existem espectros autoritários em meio aos bolsonaristas – e é um novo negacionismo qualquer tentativa de emplacar a ideia de que existem pessoas infiltradas em meio à manifestantes ordeiros. Os supostos infiltrados são os radicais bolsonaristas, os fascistas, os que devem agora sentir o rigor da lei como efeito imediato da baderna histórica que causaram. Houve uma tentativa de golpe de Estado. Agora é a vez da reação do Estado que tentou ser golpeado.

A intervenção federal do governo Lula sobre a segurança do Distrito Federal e o afastamento determinado pelo Stf do governador Ibaneis Rocha (Mdb) foram os primeiros atos concretos. A tomada de Brasília não seria realizada sem omissão, conivência e/ou incompetência do governo do Distrito Federal – que recebe repasses da União extremamente desproporcionais em relação aos Estados brasileiros justamente por ser a sede do poder brasileiro. Ainda durante os atos golpistas, Ibaneis correu para gravar um vídeo pedindo desculpas a Lula, ao presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, e à presidente do Stf, Rosa Weber. Sentia que corria risco. Ficará afastado pelos próximos 90 dias.

No comando da segurança do Distrito Federal estava Anderson Torres, ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Foi exonerado ainda com os vândalos dentro do Congresso. Fica a pergunta: se o governador catarinense Jorginho Mello (Partido Liberal) tivesse aceitado as pressões para que Silvinei Vasquez, ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal da gestão Bolsonaro, fosse seu secretário de Segurança, teríamos aqui um palco alternativo da tentativa de golpe? Jorginho escapou dessa armadilha.

O governador catarinense emitiu uma nota tímida sobre os acontecimentos, falando em “cautela” e defendendo manifestações pacíficas. Na porta dos quarteis, ingenuamente ou não, os bolsonaristas pediam intervenção militar, deposição de presidente eleito, destituição de ministros do Stf. Nada disso é um passeio no parque. A Assembleia Legislativa também emitiu nota, mais dura, dizendo que “não é possível tolerar atos antidemocráticos e violentos que avançam sobre os prédios públicos e as instituições e autoridades legal e legitimamente constituídas”.

Jorginho sabe que deve a eleição ao eleitor de Jair Bolsonaro em Santa Catarina. Precisa andar no fio da navalha entre o repúdio aos atos golpistas e a adulação das grupos mais radicais do bolsonarismo, que podem lhe trazer as dores de cabeça que o ex-governador Carlos Moisés (Republicanos) teve quando tentou mostrar-se um pouco mais ameno do que o antigo inquilino do Palácio do Planalto.

Ainda no domingo, escrevi no Twitter que os acontecimentos de Brasília delimitam quem está dentro do jogo democrático e quem está fora. Isso é muito maior que esquerda ou direita, liberais ou conservadores, os humores do mercado ou o que for. Da mesma forma que os Estados Unidos reagiram com rigor contra os golpistas do Capitólio, o Estado brasileiro precisa mostrar que a democracia sabe ser intolerante com os intolerantes.


Sobre a foto em destaque:

Golpistas bolsonaristas em confronto com as forças de segurança do Distrito Federal em frente ao Supremo Tribunal Federal. Foto: Marcelo Camargo, Agência Brasil.

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