logo-branco.png

18 de junho de 2024

O bode na sala na educação. Por Bruno Souza

Bruno Souza artigo

Por Bruno Souza

Em meio às recentes greves de professores em Santa Catarina, um tema crucial tem sido sistematicamente ignorado tanto pela mídia quanto pelos políticos: a qualidade do ensino.

A valorização dos profissionais da educação é, sem dúvida, um ponto importante e merece atenção. Contudo, parece haver um silêncio ensurdecedor sobre a valorização dos verdadeiros beneficiários do sistema educacional: os alunos. Ano após ano, observamos que nossos estudantes saem das escolas sem dominar competências básicas em matemática e interpretação de texto, mas pouco se fala sobre isso.

Recentemente, um vídeo que circulou nas redes sociais mostrou um jovem perguntando a transeuntes quanto é 50% de 7. De 11 jovens questionados, apenas um soube responder corretamente.

Esse episódio anedótico ilustra uma realidade mais profunda e preocupante sobre o nível de aprendizado em nosso estado e no país como um todo. De acordo com o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), que avalia a capacidade de alunos de 15 anos em 79 países, o Brasil continuamente registra desempenho abaixo da média em matemática, leitura e ciências.

Especificamente, na última avaliação do PISA, o Brasil ficou entre os 20 piores países, enquanto países com investimentos similares em educação apresentam resultados significativamente melhores. A média de pontos do Brasil foi de 379 em Matemática, 93 pontos abaixo da média da OCDE, que é de 472 pontos.

É importante destacar que, ao longo das últimas décadas, o Brasil aumentou significativamente os investimentos em educação. Segundo dados de pesquisa do INSPER, o gasto público direto por estudante, em termos reais, aumentou 15% ao ano no Brasil!

Hoje, o Brasil investe cerca de 6% do PIB em educação, valor maior do que o investimento de 83% dos países do mundo, segundo dados do Banco Mundial.

No entanto, essa elevação do investimento não se traduziu em melhoria no desempenho educacional dos alunos. Em 2005, um aluno brasileiro médio alcançava 260 pontos na Escala Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). Dez anos depois, em 2015, o gasto por aluno já havia se multiplicado por cinco (saindo de R$ 1.500 para quase R$ 7.000); entretanto, qual foi o desempenho dos nossos jovens na mesma avaliação? 260 pontos!

O descolamento entre o aumento dos gastos e a melhoria da qualidade do ensino é uma questão crítica que deveríamos discutir: por que mais dinheiro não está resultando em melhores resultados educacionais? A resposta provavelmente reside na necessidade de reformas mais profundas no sistema educacional, que vão além do simples aumento de financiamento.

É essencial considerar fatores como a qualidade da formação dos professores, a gestão escolar, o envolvimento da comunidade, as metodologias de ensino e o acompanhamento contínuo do progresso dos alunos.

Porém, só faz sentido questionar esses assuntos incômodos quando o péssimo desempenho dos alunos importa. Ninguém parece se importar. Por que se incomodar com debates desgastantes se a sociedade simplesmente aceita investir mais sem se preocupar com o retorno do investimento?

No contexto atual de greve, onde as discussões giram predominantemente em torno de remuneração, é fundamental que também se levante a bandeira da qualidade do ensino. Não se trata apenas de valorizar os educadores, mas de garantir que o investimento na educação resulte efetivamente na formação de jovens capazes de enfrentar os desafios do mercado de trabalho e da vida.

Precisamos de uma discussão honesta e abrangente que coloque a qualidade da educação e o desempenho dos alunos no centro das políticas públicas. Afinal, educar não é apenas a mera transmissão de conhecimento; é garantir que esse conhecimento seja assimilado e possa ser aplicado.

Enquanto isso não acontecer, continuaremos nesta trajetória de aumento de gastos (sem esquecer que escolher onde gastar implica renunciar a gastar em outra área) sem melhor aprendizado. Quando vamos começar a valorizar os alunos? Quando vamos começar a discutir o bode na sala da educação?

Não sei qual será o fim da greve, mas, de acordo com os dados e pesquisas, enquanto o debate se limitar apenas à remuneração, não haverá melhoria no fraco desempenho dos nossos alunos.


Bruno Souza (PL) foi deputado estadual e vereador em Florianópolis.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit

Anúncios e chamada para o mailing