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14 de abril de 2024

Carta aberta a Dário Berger. Por Fred Perillo

Fred Perillo escreve carta aberta ao ex-senador Dário Berger sobre as mudanças na comunicação política divulgação de mandatos

Por Fred Perillo

Prezado Senhor,

Com a máxima consideração, tomo a liberdade de fazer alguns comentários acerca de sua recente entrevista ao jornalista Upiara Boschi, na série Cabeça de Político.

Pitacos que também podem ser úteis ao mercado do marketing político.

Antes de mais nada, registro publicamente meu respeito à sua trajetória. Afinal, ninguém consegue a proeza de, além dos demais cargos que ocupou, ser prefeito de duas cidades importantes sem fazer uma gestão acima da média. E, certamente, soube se comunicar com eficiência neste período. Mas eram tempos diferentes, como veremos adiante.

Porém, esse modesto texto é para falar de comunicação, e não de gestão. E é exatamente onde começa o (seu) problema.

Na entrevista o senhor disse, não necessariamente com essas palavras, que fazer comunicação política é uma espécie de subterfúgio. E o alvo em questão era o prefeito de Florianópolis, que seria mais “tiktoker” do que um prefeito “de verdade”, como insinuou.

Para que não haja nenhuma injustiça quando ao contexto da sua fala, segue trecho específico:

Agora, vamos direto ao que interessa.

Primeiramente, precisamos entender que diabos é subterfúgio.

Segundo o dicionário, trata-se de manobra ou pretexto para evitar dificuldades; evasiva.

E aqui vai a minha primeira dica: evite usar palavras difíceis em discursos e entrevistas. O cérebro do eleitor, como de qualquer ser humano, não quer dificuldade. Quanto mais simples o vocabulário, mais facilmente a comunicação será compreendida e assimilada.

Portanto, salvo improvável engano, sua intenção foi dizer que Topázio – e os demais políticos pejorativamente chamados de tiktokers – usa evasivas para esconder que não “faz”, que não entrega nada em sua gestão. Por isso, como uma espécie de tática diversionista, vive de fazer videos para as redes sociais.

Fiquei na dúvida: se o nobre ex-prefeito de São José ignora que o jogo da comunicação política mudou – dramaticamente – ou, deliberadamente, quis jogar pra platéia. O que não é nenhum pecado, faz parte da guerra que é uma pre-campanha.

Confesso: desconheço se Topázio, João Campos (prefeito do Recife) e outros gestores queridinhos das redes sociais são bons gestores. Não cabe a mim avaliar as respectivas administrações.

Mas eu preciso lhe dizer algo que talvez incomode, mas o intuito é ajudar: ao contrário do senhor, eles são políticos modernos, contemporâneos, que dominam os códigos, gatilhos e truques que constituem a comunicação política atual.

E digo mais: eles não fazem vídeos engraçadinhos para encobrir uma suposta inoperância em suas gestões. Pelo contrário, via de regra em cada produção há uma obra, ação ou conquista. Mas comunicada de um jeito diferente, moderno e atual.

Divulgar seus feitos sempre foi mais do que um direito, é um dever dos governantes. Afinal, o que não é comunicado não existe.

Mas agora não basta a um mandatário prestar contas de um jeito chato e burocrático.

Tão importante quando “fazer” e mostrar, é preciso “ser”. Ser interessante, divertido, didático, próximo das pessoas.

Tire de sua cabeça, não existe esse falo dilema: ser ou fazer.

Eu sou capaz de afirmar – pasme – que o jeito como comunicamos uma obra ou ação política é tão ou mais importante (para a imagem do político) que o benefício em si.

Calma, não se desespere. Gatilhos mentais, pirâmide invertida, círculo dourado, algoritmos, roteiros persuasivos, storytelling, humanização fazem parte de um universo relativamente novo no marketing político.

Não é sua culpa ignorar o que realmente funciona na comunicação atual. Eu mesmo venho tentando me reinventar. Pecado é continuar insistindo em velhas e empoeiradas fórmulas que não servem pra nada.

Pegue o código: ao invés de falar mal, de dizer que comunicação é subterfúgio, surfe nesta onda. Considere, inclusive, se inspirar nos formatos e técnicas que estão consagrando seu antagonista.

Não se ofenda, mas o estilo “tiktoker do Topázio, por mais paradoxal que pareça, pode ser a grande chance de reposicionar sua marca política.

É isso.

Com estima e consideração,

Fred Perillo.



Fred Perillo é consultor político e professor.

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