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18 de junho de 2024

O desastre da ignorância pede bom senso

A triste guerra de narrativas que invadiu as redes sociais, trazendo uma discussão ideológica, no palco da tragédia que vive o Rio Grande do Sul, precisa de mais alertas de lucidez e isso é urgente.

Como catarinenses, que já vivemos experiências de desastres naturais, ao exemplo de 2008, quando 135 pessoas perderam a vida, em virtude de enchentes e deslizamentos na região do Vale do Itajaí, devemos ser os primeiros a levantar a bandeira pelo fim desse debate que nada acrescenta.

Quando um voluntário é impedido de atuar em determinada demanda, há algum motivo que a experiência dos profissionais de resposta aos desastres pode, certamente, explicar. O fato é que a urgência, neste momento, é pelas vidas que escapam pelas águas gaúchas. É pela minimização da dor e do dano.

Claro que há falhas, até porque nem o melhor plano de contingência poderia prever tamanha catástrofe e sim, não é preciso ser especialista para saber que faltou prevenção.

Em 2008, trabalhei na equipe que coordenou a resposta ao desastre do Morro do Baú. Quem ajudou, de forma voluntária, foi movido pela solidariedade. Quem trabalhou, pela urgência. Ana Maria Braga, na Rede Globo, vestiu traje camuflado e divulgou para o Brasil pedidos de ajuda. A ajuda chegou e a triagem das doações exigiu uma força humana que fazia falta em outros lugares. Sobraram roupas, faltava alimento. Ronaldo Fenômeno, dentre outros artistas, resolveu vir para doar R$ 200 mil. Precisamos parar uma equipe que atendia vítimas, para fazer a sua segurança. A imprensa ficou dividida entre o ex-jogador e a tragédia. Políticos pediam para sobrevoar as áreas afetadas, sem compreender que os helicópteros precisavam priorizar as equipes de respostas e vítimas.

Sem a força da rede social, a capacidade de gerenciar fake news e desinformação, em 2008, foi mais fácil. Atualmente, em tempos de vaidades, curtidas e viralização, precisamos combater a ignorância com bom senso.

Em uma situação extrema toda ajuda é bem-vinda. Mas, ajudar requer compreensão e empatia. Para auxiliar as vítimas do Rio Grande do Sul, divulgar informações corretas, promover campanhas e ter um pouco de compaixão vai contribuir mais que essa guerra em busca de responsáveis. Tratar do desastre e de seu gerenciamento sem conhecimento ou apoio técnico; divulgar recortes de narrativas, fora de contexto; fomentar discussões, sem o mínimo de conhecimento sobre o tema, traz ainda mais insegurança para um povo que merece respeito. Autopromoção, não ajuda. Criticar, não ajuda. Postar foto do seu pix, não ajuda. Pelo menos neste momento angustiante o desastre é sobre as vítimas, não sobre nós.


Imagem: Youtube.

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