O ano começa sem recesso para as preocupações do agro. Mesmo com o Congresso ainda fora do plenário, decisões tomadas no apagar das luzes de 2025 já impõem um novo ritmo para 2026.

O veto do presidente Lula à proteção orçamentária do Seguro Rural e da Embrapa na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) acendeu o sinal de alerta em Brasília e provocou reação imediata da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Ao mesmo tempo, o setor entra no novo ano sob a consolidação de um cenário que mistura crédito verde, regras ambientais mais rígidas, exigências internacionais e mercado de carbono.
Para Santa Catarina, o desafio é transformar esse ambiente regulatório em oportunidade – sem perder competitividade, renda e previsibilidade.
LDO 2026: veto de Lula expõe Seguro Rural e Embrapa
O governo federal publicou, no fim de dezembro, a LDO 2026 com um veto que retirou a proteção contra contingenciamentos de despesas consideradas estratégicas para o agro, como a subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, ações de pesquisa e infraestrutura da Embrapa, além de recursos para defesa agropecuária, regulação e fiscalização.
O dispositivo havia sido aprovado pelo Congresso justamente para impedir cortes nessas áreas ao longo do exercício orçamentário. Na mensagem enviada ao Legislativo, o Executivo alegou necessidade de preservar a flexibilidade fiscal e cumprir a meta de resultado primário.
Na prática, o veto devolve ao governo a possibilidade de bloquear recursos fundamentais em um cenário já marcado por eventos climáticos extremos e aumento de risco produtivo.
FPA reage e promete embate em fevereiro
A reação da Frente Parlamentar da Agropecuária foi imediata. O presidente da FPA, deputado Pedro Lupion, classificou o veto como “preocupante” e lembrou que, em 2025, o Seguro Rural já operou com orçamento insuficiente.
A estratégia agora é política: a FPA pretende se mobilizar para tentar derrubar o veto assim que os trabalhos legislativos forem retomados, em fevereiro.
Para o setor, deixar o Seguro Rural e a Embrapa expostos a contingenciamentos é comprometer a previsibilidade da produção — justamente no momento em que o risco climático se tornou permanente.
Agro em 2026: crédito verde ganha protagonismo
Se o orçamento preocupa, o crédito muda de perfil. Em 2026, tende a ganhar força o direcionamento de financiamentos com taxas mais atrativas para produtores que adotem práticas sustentáveis.
Linhas do Plano Safra já indicam esse movimento, e programas como Caminho Verde Brasil e EcoInvest avançam no financiamento à recuperação de áreas degradadas e investimentos ambientais.
O recado é claro: o dinheiro mais barato estará cada vez mais associado a indicadores ambientais, rastreabilidade e comprovação de boas práticas. Para quem se antecipar, pode ser oportunidade. Para quem ignorar, risco de ficar fora.
Sem desmatamento, sem crédito
A comprovação de que não há desmatamento ilegal deixa de ser apenas exigência internacional e passa a ser critério interno de acesso ao crédito e ao seguro rural. Bancos, seguradoras e fundos já condicionam operações à regularidade ambiental.
Nesse contexto, a validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e a implementação efetiva do Código Florestal tornam-se estratégicas. Não basta cumprir: será preciso provar que está cumprindo — sob pena de restrição de crédito, embargos e fiscalização mais intensa.
Europa, EUDR e novas barreiras no horizonte
Mesmo com adiamentos, a lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR) segue no radar do agro brasileiro. Mais do que atender à norma europeia, o desafio será lidar com um movimento global crescente de uso de critérios ambientais como barreiras comerciais disfarçadas.
A incapacidade histórica do Brasil de separar, com dados claros, desmatamento legal e ilegal abre espaço para pressões externas. Em 2026, o comércio internacional tende a ser tão político quanto técnico.
Mercado de carbono: oportunidade, não salvador
A criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões abre caminho para novas fontes de receita, mas o setor já começa 2026 com um alerta: carbono não será “mais uma safra”.
A regulamentação ainda está em construção, e a geração de créditos dependerá de um conjunto amplo de atividades — não apenas conservação florestal. O produtor que enxergar o carbono como renda garantida pode se frustrar; quem tratá-lo como estratégia complementar tende a sair na frente.
COP30 ficou, COP31 vem aí
Os compromissos assumidos pelo Brasil na COP30 seguem influenciando políticas internas. Entre eles, o estímulo aos biocombustíveis e a proposta de um roadmap para enfrentar o desmatamento. Em 2026, o agro também começa a olhar para a COP31, na Turquia, que deve concluir debates sobre agricultura, segurança alimentar e clima.
O setor espera que os compromissos climáticos venham acompanhados de incentivos econômicos, e não apenas de comandos e controles.
FAESC: produção forte e aposta no diálogo
Para o presidente do Sistema FAESC/SENAR-SC, José Zeferino Pedrozo, o agro catarinense encerrou 2025 com resultados positivos, mesmo em um cenário econômico exigente.
Santa Catarina manteve liderança em cadeias estratégicas como suínos, cebola e maricultura, além de avançar em regularização ambiental e qualificação no campo.
Para 2026, a aposta é no diálogo institucional, na defesa da segurança jurídica e na construção de oportunidades a partir das novas exigências ambientais.
SC fecha 2025 com recordes e prepara novo ciclo
Na avaliação do secretário de Estado da Agricultura e Pecuária, Carlos Chiodini, 2025 foi um ano histórico para o agro catarinense. O Estado registrou safra recorde de grãos, exportações históricas de carnes e investimentos robustos em programas estruturantes.
Para 2026, o foco será ampliar iniciativas como o SC Rural 2, o Coopera Agro SC, reforçar a defesa sanitária, a conectividade rural e a resiliência frente aos eventos climáticos. A mensagem é clara: produção forte, mas com base em política pública estruturada.
Ano novo, regras novas e o agro atento
O ano começa com menos folga e mais exigência. O orçamento aperta, o crédito muda de lógica, o mercado cobra comprovação e o clima segue imprevisível.
O agro entra no ano produtivo, competitivo e atento – porque, mais do que nunca, produzir bem não basta.
A Política e Agro está de volta. E o campo segue no centro do jogo.





