2026 promete recordes, mas o arroz acende o alerta no agro

O agronegócio brasileiro começa 2026 sob a promessa de novos recordes, mas também com sinais claros de alerta.

As projeções da Conab indicam uma produção histórica de grãos, puxada pela soja, enquanto o arroz entra no radar como ponto de atenção – tanto pela redução da área plantada quanto pelos efeitos indiretos da crise na Venezuela, tradicional compradora do produto brasileiro.

Em paralelo, temas recorrentes do ano passado voltam ao centro do debate: o leite, com a Conab entrando em campo para sustentar preços e renda, e a formação de profissionais, com Santa Catarina apostando na educação técnica como estratégia de longo prazo para o agro.

Safra recorde à vista, com sinal amarelo no arroz

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta que a produção brasileira de grãos em 2026 alcance 354,4 milhões de toneladas, um novo recorde histórico.

A soja segue como principal motor desse crescimento, com estimativa de 177,1 milhões de toneladas, consolidando o Brasil como líder global.

O arroz, no entanto, caminha na contramão. A Conab estima uma queda de 12,4% na produção, que deve recuar para 11,2 milhões de toneladas, reflexo direto da redução de área plantada. O movimento preocupa o setor, já que o cereal é item básico da alimentação e altamente sensível a oscilações de oferta. Analistas alertam para o risco de pressão inflacionária e para a possibilidade de aumento das importações ao longo do ano.

O contraste é claro: enquanto o agro bate recordes em volume, o arroz expõe as fragilidades de margens apertadas e decisões defensivas dos produtores.

Crise na Venezuela pressiona custos e atinge o arroz brasileiro

A instabilidade política e geopolítica na Venezuela adiciona um novo fator de incerteza ao cenário do agro em 2026.

Embora o país vizinho não seja hoje um parceiro central do Brasil em volume total, os impactos indiretos começam a aparecer – especialmente para o arroz.

Especialistas apontam que a crise afeta o agro brasileiro por canais indiretos: aumento do prêmio de risco no petróleo, encarecimento do diesel, pressão sobre fertilizantes e maior cautela de investidores em infraestrutura e logística. Em um setor que já opera com margens estreitas, qualquer volatilidade adicional corrói resultados.

No caso do arroz, o alerta é ainda maior. A Venezuela foi historicamente um dos principais destinos do produto brasileiro. Em 2025, importou 165,7 mil toneladas de arroz em casca, o equivalente a 32,4% das exportações nacionais, segundo a Abiarroz.

Com a mudança no cenário político e a possível reorganização de fornecedores, o setor teme perder competitividade e espaço, caso o país passe a priorizar parceiros alinhados à nova conjuntura geopolítica.

Diesel, fertilizantes e risco regional no radar

A crise venezuelana também influencia o mercado de energia. Mesmo com produção reduzida, a Venezuela segue sendo um ativo estratégico no mercado global de petróleo. Qualquer instabilidade prolongada adiciona prêmio de risco ao barril e isso se reflete diretamente no custo do diesel, insumo essencial para o preparo do solo, colheita e transporte da produção.

Além disso, o ambiente geopolítico pressiona o mercado global de fertilizantes, altamente concentrado e sensível a choques externos. O resultado é um agro mais cauteloso, com planejamento de safra cada vez mais dependente de previsibilidade internacional.

Conab compra leite por R$ 106 milhões e reforça renda no Sul

Outro tema que volta ao protagonismo em 2026 é o leite. A Conab anunciou uma operação de R$ 106 milhões para a compra institucional de leite em pó, no âmbito do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Serão adquiridas 2,5 mil toneladas, equivalentes a mais de 20 milhões de litros de leite integral.

O Rio Grande do Sul concentra cerca de 50% dos recursos, com R$ 53 milhões destinados a 22 organizações.

Santa Catarina também tem papel relevante, com R$ 12,5 milhões, enquanto o Paraná recebe pouco mais de R$ 11 milhões. Juntos, os três estados respondem por 72% dos recursos, reforçando o protagonismo do Sul na cadeia leiteira.

A operação tem execução imediata e dupla função: apoiar produtores e cooperativas em um momento de preços pressionados e garantir alimentos para populações em situação de vulnerabilidade, inclusive em regiões afetadas por eventos climáticos extremos. Pela primeira vez, o edital também incluiu o leite de cabra, ampliando o alcance da política pública.

Educação técnica ganha força em SC com gestão da Epagri

Enquanto o mercado aperta, Santa Catarina investe no futuro. Em fevereiro de 2025, a Epagri assumiu a gestão compartilhada dos Cedups Agrotécnicos, em parceria com a Secretaria de Estado da Educação, inaugurando um novo modelo de ensino técnico no campo.

As unidades estão localizadas em São Miguel do Oeste, Campo Erê, Canoinhas, Água Doce e São José do Cerrito. Em dez meses, a Epagri investiu cerca de R$ 12 milhões em infraestrutura e formação de professores, beneficiando aproximadamente 1,5 mil estudantes.

O diferencial do modelo está na integração direta com estações experimentais, centros de treinamento e a extensão rural, aproximando ensino, pesquisa e prática. Mais da metade dos alunos é formada por filhos de agricultores, e a meta para 2026 é ampliar a participação de jovens da agricultura familiar e fortalecer a presença feminina no ensino agrotécnico.

Recordes com cautela

2026 começa com números robustos, mas também com recados claros. O arroz exige atenção redobrada, o leite segue dependendo de políticas de sustentação e a geopolítica entra definitivamente na conta do produtor.
Entre recordes e riscos, o agro avança atento, pressionado e cada vez mais dependente de decisões que ultrapassam a porteira.

A Política e Agro segue acompanhando.

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