Triplicação da SC-401: uma obra que nasce errada e envelhece rápido. Por Elson Pereira

Artigo de Elson Manoel Pereira, Dr. em Planejamento Urbano

A triplicação da SC-401, obra do Governo do Estado, vem sendo apresentada pelo governo municipal como uma solução para os históricos problemas de mobilidade de Florianópolis. No entanto, uma análise minimamente criteriosa revela que se trata de mais um exemplo de intervenção concebida sem planejamento adequado, executada às pressas e orientada muito mais pela lógica da visibilidade política do que pelo interesse público.

O equívoco começa na concepção do projeto. Em um contexto marcado por congestionamentos crônicos, crise climática e crescente desigualdade no acesso à cidade, a obra não prioriza o transporte coletivo. Ao invés de corredores exclusivos de ônibus, soluções integradas de mobilidade ou estímulo efetivo aos modos ativos, optou-se pela ampliação da capacidade viária para o automóvel individual — uma estratégia já amplamente conhecida por induzir mais tráfego e agravar os problemas que promete resolver.

Anunciou-se a implantação de calçadas e ciclovias, mas o trecho inaugurado às pressas para atender à temporada de verão sequer conta com um sistema adequado de drenagem. O resultado é previsível: rápida deterioração do asfalto recém-executado e novos custos de manutenção arcados pela população. Em diversos pontos, a terceira faixa foi obtida por meio do estreitamento perigoso das pistas, aumentando significativamente os riscos de acidentes.

Preocupam também as soluções improvisadas de contenção em áreas de corte. Em alguns trechos, o terreno não foi devidamente estabilizado, já havendo registros de rolamento de rochas. Trata-se de uma situação grave, que expõe usuários da via a riscos evitáveis e evidencia a fragilidade técnica da intervenção.

O que se observa, portanto, é a convergência de práticas dos governos estadual e municipal que substituem o planejamento urbano por ações pontuais, guiadas pela urgência de inaugurações e pela lógica das redes sociais. Mobilidade urbana exige visão de longo prazo, responsabilidade técnica e compromisso com o interesse coletivo — não marketing político.

Florianópolis não precisa de obras apressadas e mal concebidas. Precisa de políticas públicas estruturantes, capazes de enfrentar seus problemas históricos de mobilidade com seriedade, transparência e prioridade às pessoas, e não aos automóveis.

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