Depois de mais de 25 anos de negociação, o acordo entre Mercosul e União Europeia finalmente saiu do discurso e entrou no papel – ainda que provisoriamente.

A aprovação política dada na última sexta-feira pelo bloco europeu destravou a assinatura do acordo e inaugurou uma nova fase no comércio internacional do Brasil.
Mas, se o governo comemora, o agro faz contas. Salvaguardas, barreiras ambientais, vetos internos e insegurança jurídica seguem no radar.
O acordo avança, sim, mas longe de ser consenso ou solução mágica.
O que foi aprovado na União Europeia e o que ainda falta
A União Europeia aprovou, por maioria qualificada, a aprovação provisória do acordo com o Mercosul.
Na prática, os embaixadores dos 27 países deram sinal verde para que a Comissão Europeia assine o tratado com o bloco sul-americano.
Isso não significa entrada em vigor imediata. O acordo completo ainda precisa:
- passar pelo Parlamento Europeu;
- ser formalmente ratificado pelos países-membro;
- vencer resistências políticas internas, especialmente no setor agrícola.
Enquanto isso, a UE trabalha com a possibilidade de um acordo interino, um “guarda-chuva comercial” que permite antecipar reduções tarifárias e regras de comércio antes da ratificação total.
Por que a Europa correu agora
A pressa europeia não é altruísmo. Alemanha e Espanha defendem o acordo como resposta ao mundo mais protecionista, tentando compensar o tarifaço dos Estados Unidos e reduzir a dependência da China.
Do ponto de vista financeiro, a UE estima uma economia de cerca de € 4 bilhões em impostos sobre exportações para o Mercosul. É comércio, não diplomacia romântica.
Mas o bloco está longe de falar em uníssono.
Europa dividida, trator na rua e resistência aberta
A França lidera a resistência, acompanhada por Polônia e Irlanda em diferentes momentos. Agricultores europeus seguem protestando, com tratores nas ruas e pressão direta sobre governos.
A ministra da Agricultura francesa já avisou: a briga agora migra para o Parlamento Europeu. Entidades ambientalistas também entraram em campo, repetindo o discurso climático e de sustentabilidade – o mesmo que costuma virar barreira não tarifária quando o produto vem de fora.
Governo brasileiro celebra avanço
Do lado brasileiro, o tom é otimista.
O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, classificou a aprovação provisória como avanço relevante e minimizou o peso das salvaguardas, apostando na ampliação de oportunidades.
O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que o governo trabalha com a expectativa de o acordo entrar em vigor ainda em 2026 e reforçou a defesa do multilateralismo em um cenário global cada vez mais fechado.
A ApexBrasil estima um mercado de quase US$ 22 trilhões e projeta potencial adicional de US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras.
FPA: avanço real, mas longe do ideal
A reação do agro veio com aplauso contido.
A senadora Tereza Cristina, uma das vozes mais influentes do setor, reconheceu o avanço, mas foi direta: não é o acordo dos sonhos. Para ela, as salvaguardas mantêm o livre comércio distante e reforçam o protecionismo europeu — ainda que o acordo abra alternativas em um mundo mais hostil ao comércio.
Entidades do agro: sinal verde com freio de mão puxado
As entidades seguiram a mesma linha:
- Faesp: viu avanço estratégico diante do tarifaço dos EUA, mas cobrou postura firme do Brasil para proteger o produtor interno, citando gargalos como juros altos, seguro rural frágil e crédito restrito.
- Farsul: reconheceu ganho histórico, mas criticou o peso do protecionismo europeu embutido em exigências ambientais e sanitárias, além da postura brasileira de acomodar medidas unilaterais para não perder o acordo.
- Abag: tratou o acordo como estratégico e defendeu agenda de longo prazo, incluindo combustíveis sustentáveis para aviação, transporte marítimo, mobilidade híbrida e cooperação tecnológica.
No mercado financeiro, o termômetro reagiu: ações ligadas ao etanol subiram na B3, com investidores apostando nas cotas previstas para o produto no mercado europeu.
Vinho brasileiro cobra condições equivalentes
Se o acordo anima alguns setores, outros acendem alerta. O setor vitivinícola brasileiro deixou claro que não é contra o tratado, mas exige condições equivalentes de competição.
Entidades do Rio Grande do Sul alertam que, sem ajustes internos, a entrada gradual de vinhos europeus tende a ampliar a pressão sobre uma cadeia baseada majoritariamente na agricultura familiar. Enquanto países concorrentes tratam o vinho como alimento, patrimônio cultural ou produto estratégico, o Brasil mantém alta carga tributária e poucos instrumentos de proteção.
O risco, segundo o setor, é comprometer não só vinícolas e cooperativas, mas também o enoturismo e a renda de milhares de famílias.
Veto de Lula reacende insegurança fundiária
No campo interno, o governo voltou a tensionar a relação com o agro. O veto integral do presidente Lula ao projeto que tratava da regularização de imóveis rurais em faixas de fronteira foi classificado como retrocesso histórico.
A proposta buscava dar segurança jurídica a produtores que ocupam e exploram áreas produtivas há décadas.
Para a senadora Tereza Cristina, o veto amplia a insegurança, afasta investimentos e impede acesso a crédito, seguro e sucessão patrimonial em regiões estratégicas do país.
O tema agora retorna ao Congresso, com possibilidade de derrubada do veto, mas até lá, o impasse continua.
Agro e política se encontram em Balneário Camboriú
Enquanto Brasília decide, o agro se articula.
O Encontro Empreendedores do Brasil, realizado em Balneário Camboriú (SC), reuniu empresários, lideranças políticas e autoridades em um dos maiores fóruns de integração entre negócios e política do país.
O evento contou com nomes como Blairo Maggi, Ricardo Barros, Mauro Mendes e lideranças regionais. Nos discursos, um recado comum: o Brasil precisa reduzir polarização, garantir previsibilidade econômica e criar ambiente favorável ao setor produtivo.
O encontro reforçou uma percepção crescente: o agro não quer só produzir – quer participar do debate sobre os rumos do país.
O acordo anda, o agro observa
O Mercosul avançou, o governo comemorou, o mercado reagiu – mas o agro segue com o pé no chão. Acordo bom é o que abre mercado sem fechar a porteira por dentro.
Enquanto isso, vetos, juros altos e insegurança jurídica seguem pesando mais que qualquer tarifa.
A Política e Agro acompanha, porque o tabuleiro é grande e o jogo está longe do fim.





