A arbitragem vai soltar o verbo

O “vilão do futebol” vai falar tudo e se defender

Foto: @rafaelribeirorio I CBF

A coletiva começa, os técnicos falam, os jogadores passam apressados pela zona mista… e, por anos, a história acabava aí. O árbitro? Sumia. Saía pelo fundo, escoltado pelo silêncio e pela culpa que o futebol aprendeu a colocar sempre no mesmo lugar.

Por isso, a decisão da Federação Cearense de Futebol de colocar árbitros diante dos microfones depois dos jogos chama atenção. Não é revolução. É algo simples e raro: bom senso.

No futebol, o erro do atacante, do zagueiro, até do goleiro, é humano. “Acontece.” O do árbitro vira crime. Um gol perdido não encerra carreira. Um apito errado vira rótulo eterno. A régua nunca foi igual. E talvez porque seja mais fácil apontar o dedo para quem não tem empresário, torcida organizada ou rede social para se defender.

A conta fica ainda mais pesada quando se olha o contexto. Em um mercado bilionário, muitos árbitros seguem como semiamadores. Treinam sozinhos, pagam preparação física, fisioterapia, trabalham como PJ e recebem taxas que parecem esmola perto do espetáculo que ajudam a sustentar. A cobrança é de profissional europeu. A estrutura, de várzea.

Dar espaço para explicação não apaga o erro. Mas humaniza quem apita. Mostra que há interpretação, regra, limite humano. Transparência não inflama a polêmica, ela tira oxigênio do achismo.

Não é por acaso que a Confederação Brasileira de Futebol discute profissionalização e aposta em tecnologia, enquanto a FIFA leva inteligência artificial para Copa do Mundo de 2026. O jogo mudou. A arbitragem não pode ficar parada no tempo e nem ser tratada como vilã oficial do roteiro.

Talvez ouvir o árbitro seja só isso: lembrar que, antes do apito, existe gente. E que errar, no futebol, sempre fez parte do jogo. Para todos.

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