Amílcar Neves e o ofício libertário de escrever

“Gostaria de ser lembrado como escritor. Um escritor de certo talento, que mudou alguma coisa no mundo, por menor que seja, com o seu trabalho literário. Que desafiou o seu tempo e os costumes estratificados, bolorentos, autossuficientes….

​A autodefinição, parte de uma entrevista concedida a Oldemar Olsen Jr, para a Revista da Academia Catarinense de Letras, é uma síntese muito feliz do tubaronense Amílcar Neves, escritor prolífero e com uma trajetória repleta de surpresas. A começar pelas raízes acadêmicas, distantes das ciências humanas e das letras. Graduou-se na UFSC na primeira turma de engenharia mecânica, em plena ditadura militar, convivendo (e confrontando-se) com a lenda Caspar Erich Stemmer, fundador da Fundação de Ensino e Engenharia de SC (FEESC) e ex-reitor, falecido em 2012. A sólida carreira que construiu na área tecnológica seria suficiente para laureá-lo. Todavia, sua formação congênita como leitor e a posterior prática política o revelaram escritor. Alguém que sente “a necessidade de escrever sobre aquilo que me irrita e me incomoda, como as injustiças e a exploração do ser humano”, conforme depoimento ao jornal ND, quando eleito membro vitalício da Academia Catarinense de Letras (cadeira 32), em 2011.

​A conversa com Amílcar é oportuna, em tempos de ressurgimento e ascensão de ideologias de extrema direita no Brasil e no mundo, de livros censurados, banidos e queimados, de ataques às reputações de intelectuais e de artistas comprometidos com valores libertários. Aos 78 anos, prossegue revelando sua indignação com as desigualdades sociais e as mesquinharias da prática política, o que não o impede ser esperançoso com o país e as gerações futuras, seja pelo prazer do ofício de escritor ou pelo apego à família – desde 1970 é casado com Maria Vitória, pai de Amílcar Filho, Maria Alice e Lúcia Helena; avô de Caio, Gabriel e Samara (in memoriam). Tem 12 livros publicados, mais de 800 artigos e crônicas e nada menos que 53 prêmios em concursos literários no Brasil. Entre muito mais…

Carlos Stegemann — Somos de uma geração que fez parte da derrubada da ditaduramilitar e da redemocratização do país. Passados 40 anos, e de tudo que isso representou, estamos testemunhando o regresso ao poder de ideologias de extrema direita e o ressurgimento de graves ameaças à liberdade de expressão. Como isso deve ser enfrentado pelos escritores e ativistas culturais? O que é possível fazer, qual é o caminho?

Amílcar Neves — Não deixa de ser uma surpresa, porque achávamos que o mundo estava realmente evoluindo e o caminho era irreversível, de ideias mais progressistas, mais humanas, e a coisa foi mudando, de repente, de uma hora para outra. Vimos que tudo aquilo que foi conquistado não estava consolidado, e hoje creio poder afirmar que nunca estará consolidado em definitivo. Teremos que estar sempre cuidando disso, cuidando da democracia, da liberdade. E temos agravantes, porque estamos diante depessoas que nunca tiveram nenhum tipo de respeito com a democracia, com a liberdade, que recorrem aos argumentos que a nossa geração usava para combater a ditadura, nas décadas de 1960 e de 1970. Estão distorcendo a realidade histórica, distorcem as palavras, distorcem os argumentos para defender posições completamente antagônicas e indefensáveis. O caminho é continuar lutando. 

CS — Sua origem acadêmica é bastante distinta da maioria dos escritores, sua formação está nas ciências exatas. Como desabrocha o escritor?

Amílcar Neves — Sou da primeira turma de engenharia mecânica da UFSC, cursei entre 1965 e 1969, e que também foi a primeira turma após o golpe militar de 1964. Quando me formei — e fui o melhor aluno da turma — já estava vigente o AI-5. Tive Caspar Erich Stemmer como professor e mais tarde como meu chefe, porque lecionei nas engenharias. Tivemos muito embates, porque ele era alinhado ao regime militar e eu tinha um histórico político libertário. Já em Tubarão (SC), havia participado do movimento estudantil, presidi a União Estudantil Tubaronense. Mas tenho muitas influências familiares, pois ler era um hábito de família. Meu pai foi promotor e na sala dele havia uma estante com obras de direito e outra com os títulos de literatura. Isso proporcionou meus primeiros contatos com Eça de Queiroz, Machado de Assis, Anatole France, Maurice Leblanc e tantos outros. Minha mãe era a filha caçula entre onze irmãos, o que também me fez ser um dos primos dos mais moços. Meus primos me davam os livros que tinham, à medida que iam crescendo, fui herdando os livros. As histórias de fadas, li aos montes. 

CS — E os primeiros textos que produziste?

Amílcar Neves — Comecei a escrever e publicar com 15 anos, por causa do movimento estudantil. Em primeiro de abril de 1964, eu era secundarista e presidente do União Estudantil Tubaronense. À época, Tubarão tinha duas rádios: Tubá e Tabajara. Nosso movimento tinha um espaço de meia hora semanal em cada emissora, um no sábado e outro no domingo. Tomávamos conta dos estúdios, montávamos o programa inteiro, sempre diversificado — tinha músicas, recados para os ouvintes, notícias etc. E precisava ter uma crônica, escrita por alguém de nós, não podia ser de um cronista famoso, um Rubem Braga, Leon Eliachar, Moacir Sclyar ou Fernando Sabino. Era sempre o pessoal do científico (nota do editor: equivalente ao atual ensino médio), do segundo ou terceiro ano do científico, que escrevia as crônicas. E um dia chegaram para mim e disseram que eu deveria fazer porque eu era bom em português, tinha boas notas e boas redações. Aí comecei a produzir crônicas, redigias as duas delas semanalmente e ia para as rádios para lê-las. Começa assim a ‘brincadeira’ de escrever. 

CS — crônicas foram a tua estreia, mas te consagraste como contista, não?

Amílcar Neves — Quando ingressei na faculdade larguei a literatura, o curso era muito exigente, depois precisava trabalhar para viver. Mas, é claro, sempre lendo muito. Fui trabalhar no Paraná e, quando volto para Florianópolis, retomei minha trilha de escritor, justamente como contista. A escolha pelos contos se deu porque pensei que queria escrever algo que gostaria de ler. Escrevi um conto aqui, outro ali, de repente estavacom um livro de contos praticamente montado. Mas sem saber, minimamente, qual era o valor daquilo, porque eu não tinha contato com o pessoal da literatura local, não conhecia ninguém, nenhum escritor daqui. Nessa ‘brincadeira’, acabou saindo o meu primeiro livro. Nunca fiz curso de literatura, nunca fiz oficinas de produção de texto, curso de letras, nada. Sou completamente autodidata.

CS — E quais são os contistas de tua preferência?

Amílcar Neves — Gosto muito do Rubem Fonseca e tomei um choque, inclusive, porque eu li Rubem Fonseca depois de me tornar um contista. Eu comecei a escrever contos e quando li Rubem Fonseca percebi que eu escrevia coisas que estavam lá…

CS — E entre os estrangeiros?

Amílcar Neves — Edgar Alan Poe, Anton Tchekov — ambos têm produções fantásticas. Estou esquecendo de gente importante, é uma tarefa difícil, né? Também incluo nessa lista os contos de Kafka, Guy de Maupassant…

CS — E, entre uma produção de tamanho volume, qual seria sua criação preferida?

Amílcar Neves  Ouso afirmar que “Páginas do Desterro: Questões” seja o meu melhor trabalho. Um livro raro e pouco conhecido. Raro porque foge a muitos padrões da literatura estabelecida e a inúmeros dogmas do mercado editorial. Em termos físicos, a obra é um verdadeiro calhamaço, um autêntico tijolão. Ela se parece mais a um daqueles vetustos dicionários que as pessoas cultas sempre mantinham ao alcance das mãos. É uma coletânea de poemas, vestidos com a forma (aparente) da prosa. Poemas escondidos debaixo de contos que não os são. Neste sentido, o escritor, mais uma vez, engana o leitor: propõe-lhe uma coisa e lhe entrega outra, a qual, no entanto, não foge jamais à proposta original, ao acordo que todo escritor firma e estabelece individualmente com o seu leitor. Será, assim, um doce engano, que muito deleitará o leitor que se disponha a navegar pela obra. E aqui, de novo, retoma-se a similaridade aludida acima: navegar é o que se faz com os dicionários, posto que eles dificilmente são – ou eram – lidos do começo ao fim, de ‘A a Z’.

CS — O que sugeres para um ou uma jovem aspirante a escritor(a)?

Amílcar Neves — Para começar: se quiser ficar rico, esquece…. Mas, para escrever, procure fazê-lo da forma mais autêntica, sem seguir modismos, ou regras e temas que estão em voga. O que vale em qualquer produção literária não é a história em si, porém a forma como ela é contada. Tu podes ter um enredo meio bobo, meio simples, mas a forma de desenvolver é que dará valor literário para o texto. Então, a primeira coisa é escrever de acordo com o que tu achas, ser fiel às próprias convicções, não seguir caminhos que outros seguiram, ou estão indicando. E tentar aproveitar qualquer oportunidade que apareça para publicar, como os concursos literários, por exemplo. A grande maioria dos meus livros foi publicada em função de concursos que, geralmente, tinham como premiação a publicação do livro.

CS — Concursos literários são definitivos sobre as obras?

Amílcar Neves — Não, não são definitivos. É o juízo de um determinado grupo de pessoas, comparando o seu texto aos demais inscritos e em um determinado momento do dia. Se o texto foi lido, sei lá, às nove horas da manhã, quando o jurado está descansado, mais receptivo, vai representar uma percepção. Ou ele pode ter lido às onze da noite, quando já estava louco para acabar com aquilo, querendo passar para o próximo texto, porque ele tem prazo para terminar a avaliação dos trabalhos — e aí a percepção será outra. Agora em dezembro fui premiado em um concurso promovido pela Prefeitura de Castro (PR) e o conto que me rendeu o prêmio foi escrito em maio de 1979, mas ainda era inédito. Portanto, sempre que possível, procure escrever independente do tempo e do espaço, faça com que o seu texto possa ser atemporal, sem estar preso a minúcias de espaço. É lógico que se pode fazer uma série de referências, contudo eu não posso fazer referências que só valham naquele momento histórico, algo que deixe o personagem datado.

CS — A última pesquisa Retratos da Leitura (novembro/2024) revelou que 53% dos brasileiros não leram sequer uma parte de um livro nos últimos 12 meses, o que significa uma redução de 6,7 milhões de leitores em quatro anos. Como reverter esse cenário?

Amílcar Neves — O ideal seria que o hábito da leitura fosse despertado no seio da família, como ocorreu comigo, contigo e com tantos outros leitores. Mas a tradicional família brasileira está mais preocupada com tantas outras coisas, menos com o livro. E aí fica muito mais difícil de acontecer. Se os pais não têm o hábito de ler, como vamos esperar que os filhos leiam? Os filhos não veem os pais com livros nas mãos, eles os veem na frente televisão ou de uma tela de telefone celular. A solução passa a ser a escola. É na escola que a gente vai conseguir mudar isso. Existem professores de português que são verdadeiros entusiastas da literatura, que gostariam de estar com os escritores dentro da escola o tempo todo, conversando com os alunos, em projetos de fomento à leitura. E quando alguns desses projetos são levados a efeito, o retorno é fantástico. Não se sabe o alcance de uma palestra de um escritor numa escola, com 30ou 40 alunos numa sala de aula. Mas sempre teremos um ou dois daqueles alunos que continuarão lendo, ou quem sabe, vão escrever. E que provocarão um efeito multiplicador. Para depois, quando crescerem e tiverem as suas famílias, eles possam transmitir isso aos seus filhos. Ou seja, infelizmente, para revertermos isso precisaremos bem mais do que uma geração.

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