O agro brasileiro começa o ano legislativo de 2026 em modo defensivo. Entre vetos presidenciais, tensões comerciais internacionais e incertezas sobre crédito e orçamento, o setor voltou a ocupar o centro das articulações em Brasília.

O presidente Lula retirou da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 a blindagem que protegia despesas tratadas pelo campo como “kit de sobrevivência”.
Ao mesmo tempo, o Brasil corre contra o relógio para destravar salvaguardas chinesas da carne bovina e avalia os impactos da ameaça tarifária de Donald Trump contra países que negociam com o Irã.
O jogo começou e já não está nada fácil.
Lula veta proteção orçamentária e FPA monta ofensiva
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou integralmente o trecho da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 que impedia o contingenciamento de despesas consideradas estratégicas para o agro: subvenção ao Seguro Rural, Defesa Agropecuária e pesquisa, infraestrutura e inovação da Embrapa.
O governo justificou o veto alegando necessidade de “flexibilidade fiscal” para cumprir metas de resultado primário.
Para o setor produtivo, a decisão devolve imprevisibilidade justamente em um cenário de eventos climáticos extremos, crédito caro e custos em alta.
A reação foi imediata. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) já articula a derrubada do veto assim que o Congresso retomar os trabalhos, em 2 de fevereiro.
O presidente da FPA, Pedro Lupion, classificou o veto como preocupante para o planejamento da próxima safra. Já o vice-presidente da Frente, Arnaldo Jardim, lembrou que o Seguro Rural no Brasil já é limitado: a área segurada caiu de cerca de 17% em 2021 para apenas 8% na última safra.
Os números reforçam o alerta. Em 2024, o setor demandou R$ 2,1 bilhões para o Seguro Rural, mas o orçamento efetivo ficou em R$ 820 milhões após cortes.
Em 2025, a demanda chegou a R$ 4 bilhões, mas o valor disponível despencou para R$ 615 milhões depois dos contingenciamentos.
Lei de proteção de cultivares volta ao radar da FPA
Além do orçamento, a FPA também prepara terreno para destravar a Lei de Proteção de Cultivares, tema considerado estratégico para inovação e competitividade do agro brasileiro.
O projeto moderniza a legislação nacional para alinhá-la à UPOV 1991, ampliando prazos de proteção intelectual e garantindo retorno a investimentos em pesquisa genética. O senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) lembra que o desenvolvimento de uma nova variedade pode levar mais de 12 anos e custar até R$ 200 milhões.
Segundo o deputado Alceu Moreira (MDB-RS), relator da matéria na Comissão de Agricultura, a proposta evita concentração genética e cria segurança jurídica sem obrigar o produtor a usar cultivares protegidas — quem quiser pode seguir com variedades em domínio público.
A matéria aguarda avanço na Câmara e deve voltar à pauta assim que o Congresso retomar os trabalhos.
Brasil negocia com a China para aliviar salvaguarda da carne bovina
No comércio internacional, o governo brasileiro sentou à mesa na terça-feira, 13, com o Ministério do Comércio da China (MOFCOM) para tentar esclarecer e suavizar a salvaguarda chinesa sobre a importação de carne bovina.
Dois pedidos são tratados como urgentes:
- Excluir da cota as cargas que já estão no mar ou aguardando desembaraço;
- Permitir que o Brasil absorva volumes não utilizados por outros países.
A ABIEC afirma que o Brasil foi o país mais afetado, com a cota anual limitada a 600 mil toneladas. Segundo o presidente da entidade, Roberto Perosa, os Estados Unidos têm folga relevante na própria cota, abrindo espaço para redistribuição.
A preocupação do setor é com falta de clareza operacional e risco de prejuízo para cargas já embarcadas – o tipo de insegurança que trava decisões e encarece negócios.
Trump ameaça tarifa de 25% e o Irã entra no radar do agro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, jogou mais uma variável no tabuleiro global ao ameaçar taxar em 25% qualquer país que faça negócios com o Irã, quando negociar com os EUA.
O alerta acende sinal amarelo para o Brasil. Em 2025, o Irã foi o maior comprador de milho brasileiro, importando 9 milhões de toneladas, o equivalente a cerca de 25% das exportações do cereal e 10% da produção nacional.
A Abramilho acompanha o cenário com preocupação. Para o presidente da entidade, Paulo Bertolini, o Irã é um comprador estável, diferente de mercados mais voláteis.
Analistas avaliam que, se houver interrupção, o mercado tende a viver volatilidade no curto prazo e pressão sobre preços internos no médio prazo. Do lado dos fertilizantes, o Irã também é exportador relevante de ureia – o que reforça a dependência brasileira de insumos importados e o debate sobre produção doméstica.
BNDES reforça crédito com mais R$ 15,3 bilhões
Em meio ao aperto financeiro, o BNDES anunciou a liberação de R$ 15,3 bilhões adicionais para o Plano Safra 2025/26.
Do total, R$ 10,4 bilhões vão para a agricultura empresarial e R$ 4,9 bilhões para a agricultura familiar. Segundo o banco, ainda há R$ 20,1 bilhões disponíveis até julho de 2026.
O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, afirmou que os recursos visam apoiar investimento, inovação e sustentabilidade – pilares cada vez mais exigidos do produtor brasileiro.
Orçamento curto, mundo tenso
O agro entra em 2026 pressionado por vetos internos e ruídos externos. Seguro rural sem blindagem, comércio internacional sob tensão e crédito disputado deixam claro que previsibilidade virou ativo raro.
O Congresso terá papel central em fevereiro, na volta do ano legislativo. Derrubar vetos, destravar leis e dar segurança ao produtor não é favor – é condição mínima para seguir produzindo.
A Política e Agro acompanha, porque, neste jogo, quem pisca perde.





