O acordo entre Mercosul e União Europeia nasce com promessas conhecidas: derrubar tarifas, integrar mercados, acelerar fluxos e modernizar métodos. No futebol, esse tratado simbólico parece já estar em plena vigência. E, como costuma acontecer no esporte, e na política, o custo não aparece no discurso, mas na prática.

A chamada “dança das cadeiras”, por décadas tratada como folclore sul-americano, cruzou o Atlântico sem pedir visto. A Europa, que sempre discursou sobre projetos sólidos, paciência institucional e planejamento de longo prazo, passou a importar aquilo que o Brasil exporta com eficiência: a impaciência. Na atual temporada europeia, as cinco principais ligas já ultrapassam 20 trocas de treinadores antes mesmo do segundo turno.
O Real Madrid encerrou o ciclo de Xabi Alonso antes que o projeto amadurecesse. O Chelsea voltou a trocar de rota com a saída de Mauricio Pochettino, como quem troca ministro para tentar acalmar a base aliada. O Manchester United rompeu novamente ao demitir Erik ten Hag, repetindo a lógica de sempre: muda-se o comando para preservar quem realmente decide. Em alguns casos, a solução foi interna, com técnicos promovidos da base, uma medida emergencial, não estratégia. Governo tampão também joga bola.
Os motivos são familiares para qualquer observador do nosso futebol: pressão por resultados imediatos, ambiente instável, cobrança permanente e derrotas que custam mais do que três pontos. Custam narrativa, valor de mercado e, muitas vezes, poder. A diferença é que, no Brasil, essa lógica deixou de ser exceção e virou método. Em 2025, foram mais de 50 trocas de técnicos nas Séries A e B. Há clubes que passaram por três treinadores no mesmo ano, tratando o cargo como peça descartável.
A Europa sempre vendeu a imagem da convicção. Os sul-americanos, a da urgência. Hoje, as fronteiras estão borradas. O treinador virou o elo mais frágil de uma cadeia pressionada por investidores, torcedores globalizados e redes sociais que não aceitam processos longos. Quando o desempenho não acompanha o investimento, corta-se o técnico como quem elimina uma tarifa incômoda. É rápido, simbólico e populista.
No fim, o acordo assinado no Paraguai ajuda a fechar a metáfora. A Europa importou a impaciência. O Brasil segue exportando a instabilidade. E nesse livre comércio de ideias mal reguladas, quem paga a conta é quem fica à beira do campo.





