Artigo de Paulo Bornhausen, Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina

O acordo entre a União Europeia e o Mercosul inaugura uma nova etapa da economia internacional ao prever a redução ou eliminação de tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre os dois blocos. Na prática, isso representa acesso preferencial a um mercado de aproximadamente 700 milhões de pessoas, com alto poder de consumo e exigência crescente por qualidade, sustentabilidade e valor agregado.
Mas o benefício real desse novo cenário não é automático. Ele dependerá da capacidade de cada região de se preparar e agir com antecedência para aproveitar oportunidades quando o acordo começar a produzir efeitos.
Regiões competitivas constroem estratégia, fortalecem relações internacionais e alinham governo, indústria, agronegócio, comércio, inovação e serviços para transformar acordos em desenvolvimento concreto, com emprego e renda.
A assinatura de um acordo abre janelas. Transformar essas janelas em portas abertas para investimentos, novos negócios e cooperação depende de cada território. Quem abre portas no mundo são governos de regiões que produzem, exportam e inovam.
Estados com clareza de rumo, capacidade de articulação e diálogo permanente com parceiros internacionais e com as instituições que representam sua indústria, seu agronegócio, seu comércio e seus serviços.
Governador recorreu a líderes da UE para projetar Santa Catarina
Na prática, quem fará a diferença com o acordo União Europeia–Mercosul no Brasil, serão governos estaduais que souberem se organizar. Santa Catarina assumiu esse posicionamento essencial em 2024, por escolha do governador Jorginho Mello. Não em substituição à política externa do Brasil, mas como atitude para projetar o Estado, ampliar mercados e atrair investimentos para quem trabalha e produz aqui.
Esse movimento se traduziu em ações concretas. Em 2024 e 2025, avançamos no diálogo com Portugal e com a União Europeia, como porta de entrada, aproximando os governos, empresários e instituições catarinenses, em missão internacional e visitas oficiais.
Recentemente fortalecemos a cooperação regional com a Argentina, conectando Florianópolis e Buenos Aires, duas regiões com forte vocação econômica, e ampliando oportunidades de inserção internacional. Esse mesmo espírito orienta minha atuação em espaços como a Associação Comercial de São Paulo, onde estados com peso nas exportações discutem desafios comuns e constroem estratégias conjuntas para dialogar com a União Europeia. São ambientes que permitem antecipar exigências, entender tendências e evitar que cada região precise aprender sozinha.
Quase três décadas de atuação pelo acordo
Acompanho o acordo União Europeia–Mercosul desde os seus primeiros passos, ainda nos anos 1990. Ainda como deputado federal, entre 1995 e 1997, presidi a Comissão Parlamentar Conjunta do Congresso Nacional e participei diretamente dos primeiros passos dessa negociação. Naquele período, estivemos no Palácio de Moncloa, na Espanha, com o então presidente Fernando Henrique Cardoso, quando foi assinado o primeiro
acordo-marco entre Mercosul e União Europeia. O que estamos vendo agora é o fechamento de um ciclo que começou há quase três décadas.
Ao longo desse percurso, uma lição se confirmou: acordos ampliam mercados e reduzem custos, mas só entregam resultados a quem se agiliza. Santa Catarina irá integrar cadeias de valor europeias.
Ao agir agora, Santa Catarina se posiciona para acessar um mercado de 700 milhões de consumidores com menos barreiras tarifárias, modernizar seu parque industrial, integrar cadeias de valor europeias e disputar investimentos em inovação, infraestrutura e transição verde. Sobretudo, se prepara para transformar exigências de qualidade e sustentabilidade em vantagem competitiva.
É com esse foco que a Secretaria de Articulação Internacional vem estruturando, de forma
integrada no governo, um plano de ação voltado ao período pós-acordo.
O acordo aponta a direção.
Santa Catarina escolheu o rumo.






