Artigo de Giancarlo Tomelin, Deputado Estadual por Santa Catarina (2008–2010)

Desde a redemocratização, em 1985, o centro político brasileiro aprendeu a existir como o gato. Diferente do cachorro que gosta do dono , o gato gosta da casa. Circula por todos os cômodos, conhece os horários, percebe as fraquezas e escolhe sempre o melhor lugar para deitar. Diferentemente do cachorro , barulhento, fiel e previsível , o gato é silencioso, oportunista e, quando necessário, traiçoeiro. Não por maldade, mas por instinto de sobrevivência. Na política, essa traição não é punhalada, é cálculo feito sem calculadora , é música sem partitura e guiado por uma sensibilidade que poucos possuem.
O centro age sempre assim, naturalmente. Aproxima-se quando convém, afasta-se quando o clima esquenta ou esfria , muda de sofá sem pedir licença. Observa antes de agir, testa o terreno, mede os passos e a força do adversário. Jamais empurra a porta, espera que alguém a abra. E, quando entra, raramente deixa pegadas. É exatamente por isso que, na história política do Brasil pós 1985, quem subestima o centro costuma perder.
A política brasileira não é vencida por favoritos, mas por cavalos azarões. Presidentes improváveis, coalizões inesperadas, viradas de última hora e um campo minado de quem tinha uma avenida para ser e não foi . E quem abriu picadas e ruelas , chegou lá . Leia-se Sarney , Collor , Itamar , FHC , Dilma , Temer e Bolsonaro. No entanto , os aparentemente predestinados , Tancredo , Covas , Brizola , Ulisses , Serra , Alckmin e Aecio não lograram êxito , pois a máxima se impõe e a Presidência da República é destino e não projeto . Em todas elas, o centro estava ali , nunca no cartaz principal, mas sempre no camarim.
A polarização entre Lula e Jair Bolsonaro caminha a passos largos a um ponto de exaustão, aparentemente com data pra terminar , 2030 . O confronto permanente, infantil por vezes e capaz de debates acalorados sem a menor importância real na vida cotidiana , gera aplausos nas redes, mas cansa o eleitor real. E quando a tensão se estica demais, o risco é conhecido e o tiro pode sair pela culatra.
Nesse ambiente, o centro pode deixar de ser visto como indecisão e passar a ser percebido como solução. É aí que entram os gatos mais experientes. Gilberto Kassab é exemplo acabado desse tipo de articulação. Trabalha com jeito e não com a força. Não precisa assinar a obra para mudar o projeto. Move peças sem levantar poeira, constrói pontes enquanto outros erguem muros e, ao final, raramente é identificado como o autor , embora quase sempre esteja no enredo. O principal é que permite que a luz e os holofotes sejam inteiramente voltados ao vencedor.
O Monsieur Centrão, convém lembrar, não tem amor nem paixão. Não cultiva fidelidade emocional, nem nostalgia ideológica. Seu compromisso é com a sobrevivência, com a governabilidade e com o poder real. Se surgir um outsider competitivo, com potencial de voto, viabilidade e chance concreta de vitória, o Monsieur Centrão não hesitará em abraça-lo como se fundador do seu partido fosse. Reescreve a própria biografia sem constrangimento e passa a narrar a história como se tivesse estado sempre ali, ao seu lado e filosoficamente adepto às suas idéias, ideais e exemplos.
Contudo , o Monsieur Centrão não pode ser amorfo , absolutamente pragmático e apenas com discurso moderado e método político, sabedor que sua dificuldade reside em encantar , precisa mostrar uma avenida de prosperidade aos brasileiros e transpor o rubicão a ponto de reduzir sobremaneira a sua pecha pejorativa , sinônimo de ganância , e assim se reencontrar com uma bandeira que gere a credibilidade do centro político como símbolo de moderação e de um genuíno projeto de país . Em especial levar esta percepção as classes C, D e E , que compõe a massa eleitoral que decide . Aqui está seu calcanhar de Aquiles. Eduardo Leite e Ratinho Jr tentam encaixar-se nesse papel, dialogando com campos distintos, evitando o grito fácil e simbolizando uma alternativa ao desgaste da polarização. O detalhe de o primeiro já ter cantado em francês em eventos públicos é apenas um símbolo quase imperceptível , leve, sutilmente irônico , de uma política que prefere o tom ao berro. Já o Governador do Paraná , inova ao trazer pra Foz do Iguaçu a primeira unidade do célebre museu Centro Georges Pompidou fora de Paris e assim ambos dão sinais claros de que querem entrar no jogo da sucessão em 2026 à francesa. Mirando, obviamente 2030, pois toda a conjuntura leva reeleição.
Somos tradicionalmente um país de reeleição, tanto nos municípios, nos Estados como na Federação. Entretanto a conjuntura mundial, inclusive aqui na França , tende a um movimento à direita e ainda mais acentuado nas Américas, impulsionada por temas como economia, segurança , imigração , dívida pública , crise da democracia representativa e ceticismo institucional, em especial no poder judiciário Nesse cenário, candidatos de centro-direita, com linguagem moderada e propostas liberais temperadas por responsabilidade social, ganham tração. Os governadores surgem , assim, como nomes que dialogam com esse tempo histórico, inclusive, no caso do Rio Grande do Sul , com seu exímio exemplo pessoal de assumir sua sexualidade em terrenos movediços e palco de conservadores . Mas todos os seres humanos respeitam qualquer cidadão quando sua autenticidade fala mais alto.
Enquanto isso, Lula e a família Bolsonaro enfrentam crescente dificuldade para desautorizar o centro. Quanto mais tentam enquadrá-lo, mais o fortalecem. Como todo gato experiente, o centrão não mia alto, não avança em linha reta e não mostra as garras à toa. Mas, quando o jogo vira, ele já está confortavelmente instalado , dono do espaço, sem nunca ter pedido a chave.
Entre a fadiga da polarização e a necessidade de governabilidade, o Monsieur Centrão se vê empoderado, como o gato que, sem latir, pode terminar a noite dormindo no melhor sofá da casa.






