
Quem nunca precisou ouvir ou dizer a frase: “a imprensa criou um factoide”?
Ela costuma aparecer quando um político ou empresário acorda com o nome estampado na manchete e tenta explicar, com certo ar de injustiçado, que algo simples foi transformado em crise. A pergunta que raramente se faz é outra: o problema começou mesmo no jornal?
A imprensa, em regra, não cria crises. Ela as torna públicas. O que chega às manchetes costuma ser o desfecho visível de decisões mal avaliadas, incoerências ou da insistência em empurrar problemas com a barriga. Quando o assunto vira notícia, a crise já deixou de ser apenas interna.
Pense em um caso fictício e bastante comum. Um gestor público ou CEO toma uma decisão apressada, mal explicada dentro da própria organização e comunicada de forma confusa para fora. O incômodo começa nos bastidores, mas ninguém trata o tema como prioridade. Dias depois, a informação vaza, a imprensa publica e o episódio ganha repercussão. O diagnóstico interno surge quase automaticamente: “amplificaram algo que era simples”.
Quase nunca era simples. Apenas parecia.
No ambiente atual, coerência, consistência e verdade deixaram de ser virtudes desejáveis. Tornaram-se requisitos básicos para quem pretende atravessar a vida pública, seja política ou empresarial, sem sobressaltos permanentes. A exposição constante, a velocidade das informações e a memória pouco indulgente da internet reduziram drasticamente a margem para versões frágeis e discursos que não se sustentam nos fatos.
A reflexão de Zygmunt Bauman ajuda a entender esse cenário. Ele descreveu a confiança como algo frágil, volátil e rapidamente substituído pela suspeita. Em um ambiente assim, a perda de credibilidade não precisa de grandes escândalos. Basta a repetição de pequenos desalinhamentos.
É por isso que reputação não se resume a boa imagem ou popularidade momentânea. Ela funciona como um ponto de estabilidade em tempos instáveis. É o que permite o benefício da dúvida quando surgem acusações, erros ou situações mal explicadas. Quem construiu esse crédito atravessa crises com menos danos. Quem não construiu costuma passar por apuros.
Colocar a culpa exclusivamente na imprensa pode aliviar o desconforto imediato, mas raramente resolve o problema. Desvia o olhar do que realmente importa: decisões, processos, cultura e liderança.
Crises dificilmente começam no noticiário. O jornal registra o momento em que a gestão perde o controle da narrativa. Quando isso acontece, quase sempre o problema já vinha sendo construído em silêncio, decisão após decisão.
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