Pesquisas, sigilo e articulação: como Adriano Silva decidiu entrar no jogo eleitoral de 2026

Prefeito Adriano Silva e Jorginho Mello: movimento quente agitou o verão da política em Santa Catarina.

A decisão de Adriano Silva de ser candidato em 2026 foi amadurecida entre novembro e dezembro do ano passado. Quando as primeiras pesquisas públicas começaram a ser divulgadas, apresentando o seu nome como fator desequilibrante na eleição, o staff do prefeito de Joinville começou a se movimentar.

O diretório estadual foi o primeiro a alardear os resultados das pesquisas mostrando que mesmo sem lançar-se com pré-candidato o nome do prefeito da maior cidade do Estado tinha poder de competitividade eleitoral. O grupo de Adriano age discretamente. Todos os movimentos são muito bem calculados e, geralmente, sob sigilo e com pedidos de discrição entre os participantes das conversas. Pouca coisa vaza.

Por esses fatores a divulgação com exclusividade da coluna sobre o sigiloso almoço (leia aqui) na quarta-feira (21) e a decisão de sair candidato a vice na chapa do governador Jorginho Mello chamou tanta atenção dos bastidores. Quem teria vazado e contado tantos detalhes? Pouco importa e é irrelevante.

O fato é que a decisão de renunciar já estava praticamente tomada. E ela veio baseada em muita conversa particular e pesquisa eleitoral contratada para analisar os atuais cenários. Adriano e seu grupo queriam cercar-se de todas as informações.

Pesquisa interna apontou 60% de apoio para projeto maior

Pesquisa interna contratada de um instituto de pesquisa utilizado desde 2020 apontou o caminho. Perto de 60% dos entrevistados em Joinville indicavam que apoiavam o prefeito caso ele renunciasse à prefeitura para concorrer a um cargo maior que ajudasse a cidade.

Outro ponto da pesquisa era como a população de Joinville enxergava a vice-prefeita Rejane Gambin. Foi muito explorado se a sucessão seria bem aceita. E foi. Quase 70% dos pesquisados confiam na vice para seguir a administração aprovada por 78% do eleitorado na última eleição em 2024. A conclusão, da pesquisa, é que Rejane tem o apoio popular.

Adriano foi para o almoço no badalado restaurante Santa Mistura, na rua Otto Boehm, no bairro Atiradores, com os números embaixo do braço. A longa reunião-almoço, em sala vip do restaurante, teve a presença de liderança nacional, estadual e políticos do partido Novo. Terminou por volta das 15h30 com a decisão já tomada.

Adriano renuncia em abril e embarca na campanha de reeleição de Jorginho Mello. Na quinta-feira (22), na viagem a Florianópolis, foi somente para aceitar o convite, acertar os detalhes e gravar vídeos oficiais que foram publicados nas redes sociais e distribuídos à imprensa.

Por que tão cedo?

Não é comum uma definição já em janeiro de um candidato a vice-governador. Essas decisões, geralmente, são escolhidas no apagar das luzes das convenções. O PL e o Novo agiram diferente da política tradicional. Primeiro em uma estratégia do governador para anular a investida do PSD, de Eron Giordani e Júlio Garcia, que já havia feito um convite para apoiar Adriano em caso de disputa ao governo fazendo o prefeito de Chapecó, João Rodrigues, desistir da disputa e concorrer ao Senado.

Este convite foi feito em Joinville, neste mês, em reunião também sigilosa na casa do pai do prefeito. Com essa informação, Jorginho Mello deu a cartada certeira. Convidou Adriano para vice, fez promessas de investimentos ainda este ano para Joinville, estadualização do Hospital Municipal São José e a vaga natural em 2030 para assumir o governo. É cedo? Pode ser. Mas agora a dupla tem muito tempo para construir e pavimentar a reeleição.

Adriano tem missão partidária para cumprir

Há uma missão partidária de Adriano Silva ao entrar na disputa majoritária deste ano. O Novo precisa eleger deputados federais e romper a cláusula de barreira. Hoje o partido do prefeito tem 4 parlamentares na Câmara Federal e penas um de Santa Catarina (Gilson Marques). Adriano tem a missão de eleger pelo menos três federais no Estado. Para romper a cláusula de barreira, o partido precisa eleger 13 deputados federais ou ter 2,5% dos votos válidos para Câmara e 1,5% em pelo menos nove estados. Caso esse patamar não seja atingido, as siglas perderão acesso ao fundo partidário e ao tempo de propaganda em rádio e televisão

Decisão que bagunçou apoios e estratégias

A decisão de Adriano Silva não só mexeu como bagunçou o jogo político. Muita gente ainda não sabe como vai ficar a posição a partir desta decisão. Tem exemplo para todos os gostos. Desde o presidente da Câmara de Vereadores, Diego Machado (PSD), aliado do prefeito de Joinville, mas que poderá ter que apoiar um candidato de oposição.

Outro em situação delicada é o deputado estadual Fernando Krelling (MDB). Afinado com Jorginho Mello, estava confortável com a chance do MDB ser vice, mas que viu o castelo desmoronar e com possibilidade de decisão partidária de ter que ir pra oposição. Fernando tem conversa particular com o governador nos próximos dias.

Do movimento municipal até o estadual, a jogada de Jorginho e Adriano mexeu e causou desconforto nas estruturas partidárias

Rejane assume em abril com dúvidas sobre 2028

Rejane Gambin em discurso na Alesc e o desejo de ser prefeita de Joinville

Ainda está longe, mas muita gente tem dúvidas se a vice Rejane Gambin, prefeita a partir de abril, será o nome do Novo na eleição municipal em 2028. Ela terá dois anos e meio para implantar as suas digitais na Prefeitura, ter vida própria e mostrar que é uma continuação de Adriano Silva, mas com a sua própria personalidade.

A pesquisa interna mostrou que a população confia no seu potencial. Resta saber se foi colocado na mesa durante a negociação de 2026 o futuro 2028. A equação é complexa. Jorginho abre a vaga em 2030 para Adriano virar governador e buscar a eleição ao governo. Adriano vai antecipar e fazer o mesmo gesto para um aliado do governador em 2028?

A eleição de 2026 colocará novos nomes no jogo dependendo da performance dos votos. Quem hoje não manifesta desejo à Prefeitura vai começar a mostrar interesse depois do resultado nas urnas.

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