A virada geracional na política catarinense. Por Ernesto São Thiago

Artigo de Ernesto São Thiago, advogado

A sucessão de 2026 em Santa Catarina deixou de ser apenas uma disputa eleitoral e passou a representar uma reorganização estrutural do poder. O desenho que se consolida indica três palanques completos, estaduais e nacionais, com consequências que vão muito além do resultado imediato das urnas.

O primeiro é o da situação. Jorginho Mello caminha para a reeleição com Adriano Silva na vice e articula uma chapa ao Senado formada por Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro. Trata-se de um palanque assumidamente bolsonarista, conectado diretamente ao projeto presidencial do PL, hoje organizado em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro. É a consolidação de uma direita ideológica, nacionalizada e com forte vínculo com Brasília.

O segundo bloco é o da direita alternativa, liderado por João Rodrigues, em aliança com a federação União Brasil-PP e tendo Esperidião Amin como principal nome ao Senado. Esse campo busca se diferenciar do bolsonarismo, vinculando-se ao PSD e à possível candidatura presidencial de Ratinho Junior. É uma direita mais tradicional, pragmática e regional, mas que enfrenta dificuldades para competir com a máquina estadual e com a força simbólica do clã Bolsonaro.

O terceiro palanque é o da centro-esquerda, em recomposição. PT, PSB e setores do MDB tentam estruturar uma frente própria, com Décio Lima e Ana Paula Lima como referências e diálogo aberto com Gelson Merísio, que até recentemente se apresentava como bolsonarista e agora tenta se reposicionar como opção de centro. É um campo fragilizado eleitoralmente em Santa Catarina e com dificuldades crônicas de ampliar sua base.

O ponto decisivo, porém, está nas pesquisas e no ambiente político: cresce a possibilidade real de Jorginho liquidar a eleição ainda no primeiro turno. Se isso ocorrer, o impacto será histórico.

Não significará apenas a recondução de um governador, mas o encerramento simultâneo do ciclo político de praticamente toda a geração que dominou o Estado nas últimas décadas: Esperidião Amin, João Rodrigues, Décio e Ana Paula Lima, Gelson Merísio e Júlio Garcia. Cada um a seu modo representa o modelo anterior: partidos fortes localmente, poder construído em bastidores, acordos transversais e protagonismo estadual relativamente desconectado do eixo nacional.

No lugar, consolidar-se-ia uma nova hierarquia. Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro no Senado, Adriano Silva na vice-governadoria, Júlia Zanatta fortalecida na Câmara e Jorge Seif estabilizado no Senado formariam um núcleo de poder com outra lógica: mais jovem, mais ideológico, mais centralizado no eleitorado conservador e diretamente articulado com a política nacional.

Santa Catarina deixaria de ser apenas um estado conservador para se tornar um dos principais polos institucionais do bolsonarismo organizado.

No plano federal, a hipótese de vitória de Flávio Bolsonaro em segundo turno produziria efeito semelhante ao estadual: encerraria a carreira política de Lula e simbolizaria o esgotamento definitivo da velha liderança petista. A coincidência entre vitória nacional e consolidação estadual criaria um fenômeno raro: continuidade administrativa combinada com ruptura geracional completa.

Nesse cenário, a política catarinense entraria numa nova fase. Menos controlada por caciques locais, menos dependente das engrenagens tradicionais da Assembleia Legislativa e mais integrada a um projeto ideológico nacional. Uma troca simultânea de pessoas, métodos e centros de poder.

Não seria apenas uma eleição vencida. Seria uma mudança de regime político informal: o fim de uma era e o início de outra.

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