Do laboratório ao Congresso: o agro avança, mas o risco continua na conta

Enquanto parte do debate político ainda gira em círculos, o agro segue fazendo o que sabe: inovar, produzir e se adaptar.

Em Santa Catarina, a ciência pública aponta caminhos claros para enfrentar clima, custo e sustentabilidade.

Em Brasília, o Congresso tenta correr atrás de um problema que não é novo, mas ficou maior: o endividamento rural.

No pano de fundo, acordos internacionais, energia mais cara e insegurança no campo completam o tabuleiro.

Epagri aposta em bioinsumos e agricultura digital para o futuro do campo

Em seus 50 anos de pesquisa, a Epagri consolidou um papel estratégico na eficiência da agropecuária catarinense. Agora, mira o futuro com duas apostas centrais: agricultura digital e bioinsumos.

Segundo o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Epagri, Reney Dorow, o desafio é entregar soluções práticas para um campo pressionado por clima instável, custos crescentes e exigências ambientais cada vez maiores.

“O mercado agropecuário precisa aumentar a produtividade com o menor custo e impacto ambiental possível. A agricultura 4.0 e a biotecnologia são essenciais para alcançar esses resultados”, afirma.

A empresa já opera uma ampla base de dados climáticos, hídricos e ambientais por meio de plataformas digitais como o Agroconnect, alimentadas por mais de 300 estações meteorológicas em tempo real.

O monitoramento do frio, essencial para frutas de clima temperado como a maçã, virou ferramenta-chave no manejo dos pomares catarinenses.

Para a gerente do Ciram/Epagri, Cristina Pandolfo, eventos extremos tornaram a informação climática uma questão de sobrevivência econômica no campo.

“O impacto da instabilidade climática é direto na renda familiar e na segurança alimentar. O acesso à agricultura digital se torna ainda mais estratégico.”

Na biotecnologia, os bioinsumos já são realidade. Dados do Ministério da Agricultura mostram que 49% dos agricultores brasileiros utilizam algum tipo de insumo biológico, o maior índice do mundo.

Em Santa Catarina, a Epagri valida produtos, desenvolve bancos de microrganismos nativos e aproxima pesquisa do produtor, garantindo segurança técnica e adoção em escala.

Endividamento rural acelera debate sobre securitização

Se a pesquisa aponta o caminho do futuro, o presente cobra soluções urgentes. O endividamento rural, agravado por eventos climáticos extremos, mobilizou o Congresso em 2025 e segue como prioridade na retomada dos trabalhos legislativos em 2 de fevereiro.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) articulou audiências, negociações com o Ministério da Agricultura e votações para viabilizar securitização de dívidas, renegociação de passivos e crédito emergencial.

No Senado, o PL 320/2025, de autoria do senador Luiz Carlos Heinze, prevê a conversão de dívidas em títulos garantidos pelo Tesouro, com prazo de até 20 anos e limite global de R$ 60 bilhões. O texto já passou pela Comissão de Agricultura e aguarda análise na Comissão de Assuntos Econômicos.

Na Câmara, a crise foi debatida em audiência com o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro. A deputada catarinense Daniela Reinehr destacou a sequência de choques enfrentados pelo produtor, do clima às crises sanitárias. O recado é claro: o produtor não pede anistia, pede fôlego.

CNA alerta: tarifa zero não garante mercado europeu

No front internacional, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) jogou luz sobre um ponto sensível do acordo Mercosul–União Europeia: liberalização tarifária não significa acesso automático ao mercado.

A entidade alerta que exigências regulatórias como o Regulamento Europeu do Desmatamento (EUDR) e salvaguardas bilaterais podem neutralizar as vantagens negociadas, afetando sobretudo pequenos e médios produtores. Para a CNA, o Brasil precisa agir antes da ratificação, criando contramedidas e mecanismos de reequilíbrio para proteger o valor econômico do acordo.

Energia rural entra em consulta pública

Outra pauta que mexe diretamente no custo de produção está na mesa. O Ministério de Minas e Energia abriu consulta pública até esta terça-feira, dia 27, para flexibilizar o desconto da tarifa de energia para irrigação e aquicultura.

A proposta permite ao produtor escolher como usar 8h30 diárias de desconto, fora do horário de pico (18h às 22h59). A CNA apoia a flexibilização, mas alerta: o modelo não pode atender apenas ao interesse do setor elétrico nem impor prazos irreais para quem vive no campo.

Terra da Gente e segurança no campo entram no radar

O governo federal lançou um pacote de R$ 2,7 bilhões para o programa Terra da Gente, voltado à compra de áreas, desapropriações e crédito para assentamentos. O anúncio reacendeu o debate sobre reforma agrária, execução orçamentária e impacto no setor produtivo.

Paralelamente, tramita na Câmara um projeto do deputado Thiago Flores que cria um programa nacional de segurança no campo, com ações integradas, uso de tecnologia e linhas de crédito para proteção das propriedades rurais uma pauta que ganhou urgência diante do aumento de furtos, invasões e crimes em áreas produtivas.

Inovação avança, mas o produtor segue no fio da navalha

O agro catarinense mostra que ciência pública, tecnologia e sustentabilidade caminham juntas.

O Congresso reconhece que o endividamento virou problema estrutural. O mercado europeu segue cheio de condicionantes. E o custo da energia e da insegurança rural continua pressionando a margem.

O campo faz a parte dele. Agora, a política precisa acompanhar sem discurso bonito e com solução que chegue na porteira.

Boa terça-feira, Agroamigos. Por aqui, seguimos na lida.

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