Soja cai, fruta avança e a cebola aperta: o agro entre o mercado e a política

O agro começou a semana mostrando, mais uma vez, que produção recorde nem sempre significa renda garantida.

Com dólar mais baixo, colheita acelerada e logística pressionando preços, o mercado de grãos entra em modo cautela.

Ao mesmo tempo, a fruticultura brasileira sem esperar acordo nenhum segue abrindo espaço na Europa.

Já a cebola catarinense escancara o outro lado da moeda: produtividade alta, preços no chão e produtores no limite.

Soja em queda com dólar baixo e colheita avançando

O preço da soja caiu no mercado brasileiro puxado por dois fatores clássicos: valorização do real e avanço da colheita. Segundo a Conab, até 17 de janeiro, cerca de 3,2% da área nacional já havia sido colhida – bem acima dos 1,2% do mesmo período da safra passada.

Com expectativa de safra recorde, compradores adotaram postura defensiva. Indústrias e exportadores postergam aquisições apostando em maior oferta nas próximas semanas, o que derrubou os chamados prêmios de exportação – o adicional pago sobre a cotação da Bolsa de Chicago conforme logística e demanda.

No pano de fundo, o Cepea aponta um mercado que exige estratégia do produtor: vender no impulso pode garantir caixa imediato, mas comprometer margem em um cenário de custos ainda elevados.

Falta de silos empurra milho para o mercado

O avanço rápido da soja trouxe outro efeito colateral conhecido: falta de armazenamento.

Para liberar espaço nos armazéns e gerar caixa, muitos produtores passaram a ofertar milho, pressionando ainda mais os preços do cereal.

O milho inicia 2026 sob impacto de maior oferta, demanda interna retraída e expectativa positiva para a segunda safra (safrinha), que já começou a ser semeada dentro da janela ideal em áreas do Sul e do Centro-Oeste. Hoje, a chamada safrinha responde pela maior parte da produção nacional e dita o ritmo das exportações ao longo do ano.

Panorama regional: logística pesa nas cotações

O mercado físico da soja segue heterogêneo:

  • Rio Grande do Sul: preços em queda R$ 134/sc no porto e R$ 123/sc no interior.
  • Santa Catarina: soja voltada à agroindústria de proteína animal, cotada entre R$ 118 e R$ 121/sc; milho a R$ 75/sc.
  • Paraná: preços entre R$ 119 e R$ 131/sc, conforme a praça.
  • Mato Grosso: colheita acelerada (13,88% da área), com preços entre R$ 101 e R$ 108/sc.

A diferença entre estados reforça um velho gargalo: frete e logística seguem determinando renda, especialmente no Centro-Oeste.

A fruta brasileira fez barulho sem acordo

Enquanto o grão sofre, a fruta brasileira segue fazendo barulho na União Europeia – sem precisar do acordo Mercosul–UE.

Em 2025, os embarques cresceram 18,5% em volume e 12% em receita, alcançando 778,2 mil toneladas e US$ 847,4 milhões, segundo a Abrafrutas.

O preço médio caiu 5,4%, reflexo do aumento da oferta, mas a presença brasileira se consolidou. Mesmo assim, o setor acompanha com cautela a análise jurídica do acordo pelo Tribunal europeu, que pode atrasar reduções tarifárias.

Santa Catarina consolida liderança na maçã

Santa Catarina deu um passo estratégico ao manter a inspeção fitossanitária da maçã na origem, diretamente nos packing-houses exportadores.

A medida permite a emissão do Certificado Fitossanitário Internacional (CFI) no próprio estado, reduzindo custos, tempo e risco comercial.

Segundo a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Santa Catarina (Faesc), a iniciativa reforça a credibilidade da fruta catarinense. O estado lidera a produção nacional e deve exportar cerca de 20 mil toneladas para mais de 10 países nesta temporada, com destaque para São Joaquim e Fraiburgo.

Tilápia ganha janela histórica com a Europa

Se 2025 foi injusto com a piscicultura, 2026 começa abrindo janela. O acordo Mercosul–UE colocou a tilápia na chamada Categoria 0, com tarifa zerada desde o primeiro dia de vigência, sem cotas.

A medida reduz o preço final em até 10% e coloca o Brasil em igualdade com concorrentes como Vietnã e países da América Central. Além disso, o acordo prevê regionalização sanitária e o sistema de pre-listing, que pode destravar o bloqueio europeu às proteínas animais brasileiras.

Para a Peixe BR, a oportunidade vai além da tilápia e pode abrir espaço para peixes nativos no mercado europeu.

Cebola: produtividade alta, renda em crise

O contraste mais duro da semana veio de Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí. Maior produtor nacional de cebola, o município projeta 168 mil toneladas, mas enfrenta preços entre R$ 1 e R$ 1,20/kg, abaixo do custo de produção.

Na última sexta-feira, dia 23, a crise mobilizou produtores, representantes do governo federal e lideranças políticas em assembleia da Associação dos Produtores de Cebola de Santa Catarina (Aprocesc). A Faesc, o Mapa, o MDA e o deputado Rafael Pezenti (MDB-SC) participaram do encontro.

Pezenti foi direto: a retirada de instrumentos como Proagro e a redução da subvenção ao seguro rural fragilizam a agricultura familiar. O parlamentar se comprometeu a levar as propostas da Aprocesc a Brasília, articulando uma resposta política ao colapso de renda no setor.

Entre as propostas apresentadas estão:

  • Ampliação do prazo de reembolso para armazenagem;
  • Ajustes no PGPAF;
  • Aumento dos limites de custeio e investimento;
  • Uso de dados da Conab para concessão de descontos em situações de déficit.

Produzir mais nunca foi o problema – vender bem é o desafio

A semana deixa um recado claro: o agro brasileiro produz como poucos, mas segue refém de câmbio, logística, política comercial e instrumentos de proteção cada vez mais frágeis.

Enquanto frutas e pescado encontram espaço lá fora, grãos e hortaliças mostram que recorde sem renda vira problema social.

O campo faz sua parte. Agora, o mercado e a política precisam acompanhar antes que a conta fique grande demais para quem produz.

Boa quarta-feira e aqui de Brasília, seguimos atentos.

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