Artigo de Eduarda Hillebrandt, jornalista, consultora de comunicação política, com atuação junto a projetos partidários nacionais e campanhas eleitorais em diversos estados do País

Não é inédito, nem revolucionário. É o que é. Uma caminhada de 240 quilômetros de Paracatu até Brasília, transmitida ao vivo pelas redes sociais, gerando um movimento escandalosamente superior na esfera digital do que nas ruas. O erro é acreditar que a aderência presencial é determinante para julgar se o fato político tem ou não relevância.
Na tarde de sábado (24), Nikolas aparece descamisado, rouco, maltrapilho e cansado, convocando apoio e pedindo proteção às crianças e aos idosos na caminhada, porque o movimento se tornou gigante. Pode soar, talvez, demasiado horizontal para quem atua profissionalmente no campo da comunicação política, mas essa é a ideia mesmo.
O domingo já inicia com stories de “Acorda, Brasil” de familiares e amigos que há muito engajavam silenciosamente com o conteúdo da bolha. O posicionamento que melhor sintetiza o movimento é o de Tarcísio de Freitas, carregado de crítica estrutural e moral, ainda com rescaldo do antipetismo. Com a chancela do governador de São Paulo, Nikolas torna a caminhada suprapartidária.
O que mais chama atenção é o conjunto de signos presentes nos quilômetros percorridos — se com direito a pautas, suporte e hospedagem em hotel, pouco importa. Uma criança caminha ao lado de Nikolas, chorando de emoção, enquanto o deputado federal caminha para se tornar um potencial presidenciável. Escoltado ora por corrente humana, ora por viaturas.
Uma faixa aérea com “Deus, pátria, família e liberdade” sobrevoa a multidão de quantidade inconstante na BR-040, que caminha sob chuva e sol, empunhando o celular. O senador Magno Malta é conduzido pelos colegas em cadeira de rodas.
Nota-se também famílias marchando com crianças de colo, sob chuva. A causa inicia pela prisão de Jair Bolsonaro, mas não é estanque. Nas placas, cabem a narrativa persecutória, o Banco Master, os ministros do Supremo. E muito barulho. A multidão aparece entoando louvores e orando.
Detalhe, mas importante: Olavo de Carvalho é referenciado na marcha, e também foi base teórica do reacionarismo do início dos anos 2010, época em que um jovem Nikolas foi inserido na política. Hoje, se posiciona na órbita do clã Bolsonaro, um rapaz de “coragem” e “coração gigante” para quem nutre admiração.
Qualquer resposta do campo progressista que se ater à chacota, à soberba e à contagem de pessoas é um abraço à superioridade que levou à derrota em 2018. Na incapacidade de criar um movimento de sobreposição, os atores subjugam. A mesma ojeriza que não acreditava que uma horda revoltada seria capaz de vandalizar o Supremo em 8 de janeiro.
Lideranças petistas atribuem a caminhada a um surto coletivo, opositores tocam o berrante na beira da estrada e veículos de imprensa de grande porte fazem cobertura de ordem factual. Inclusive, há mais ênfase e resultado na contraposição no discurso independente do Movimento Brasil Livre (MBL) do que nos posicionamentos pontuais das vozes progressistas.
Assim, Nikolas sucede em criar não apenas o fato político, mas sua própria iconografia. E uma micareta, capitalizada por atores diversos do campo radicalizado do bolsonarismo — como o vereador de São Paulo Lucas Pavanato, que alcança 10 milhões de visualizações em um conteúdo.
Além disso, prova que o campo não está desmobilizado, apenas difuso, com os preceitos do bolsonarismo enraizados nas instâncias privadas. Instâncias que curtem, compartilham e mobilizam seus grupos de WhatsApp e Telegram.
O ato precede um ano eleitoral fortemente conduzido pela operação digital das pré-campanhas, em que a imprensa se torna gancho de validação de teses e mero print em vídeo de posicionamento. Ano no qual a neutralidade é punida pelo algoritmo e pelo eleitor.






