O MDB navegava em mares tranquilos, alimentando a expectativa de indicar o candidato a vice do governador Jorginho Mello (PL) em seu projeto de reeleição. De repente, uma onda gigante atingiu o barco do 15 e arremessou os emedebistas para longe da coligação governista.

O anúncio de Jorginho Mello do prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo), como vice, obrigou o MDB a buscar um novo rumo. Na noite de segunda-feira, o partido reuniu suas principais lideranças no Hotel Castelmar, em Florianópolis. Na terça, o cenário já era outro: de escanteado, o MDB havia se transformado na noiva cobiçada de diferentes projetos políticos.
Com a presença de mais de 70 integrantes do diretório estadual e das bancadas federal e estadual, o partido deliberou pela saída do governo Jorginho Mello, pela construção de uma candidatura própria ao governo do Estado e pela abertura de diálogo com todas as siglas interessadas em projetos comuns.
Líderes de partidos como PSD e União Brasil já sentaram à mesa com dirigentes emedebistas, entre eles o presidente estadual Carlos Chiodini e o vice-presidente Valdir Cobalchini.
“A deliberação do partido foi conversar com todos os partidos. Para o diálogo, não haverá nenhuma exceção — nem mesmo com o PL. Só que agora o jogo foi zerado”, explicou Chiodini.
Outros contatos, por telefone, já ocorreram com lideranças do Progressistas e até com integrantes da frente de esquerda em formação. “O momento é de muita conversa”, reforça o presidente do MDB, destacando que não se surpreende com a procura de outras siglas. “O MDB é grande, organizado, tem história de contribuição com Santa Catarina. É natural que outros partidos queiram estar conosco.”
Capital político e capilaridade
O MDB não vence uma eleição para governador em Santa Catarina desde 2006, mas preserva sua tradicional capilaridade política. Em 2024, elegeu mais de 70 prefeitos, cerca de 60 vice-prefeitos e mais de 700 vereadores. Mantém ainda seis deputados estaduais, três federais e uma senadora.
“O MDB é um partido de primeira divisão e precisa ser tratado como tal no cenário político”, sustenta o deputado federal Valdir Cobalchini, vice-presidente estadual da sigla. “Vamos para qualquer conversa, mas sempre com a convicção de que, neste momento, temos um projeto de candidatura própria”, completa.
Decisão do governador uniu o partido
Quem acompanha de perto o MDB catarinense estranhava a calmaria interna. Chiodini havia sido escolhido por unanimidade como candidato a vice. “Esse foi o primeiro sinal de que as coisas não estavam certas”, ironiza um emedebista da antiga cepa.
“Disputa interna é uma prática do MDB e sempre fez o partido sair maior destes embates”, resume o mesmo emedebista. “Estava muito tranquilo, isso não é o MDB”, completa.
“O Jorginho Mello acabou prestando um serviço ao MDB ao escolher Adriano Silva como vice. Nos uniu. Mesmo que indicássemos o vice, dificilmente o partido estaria 100% fechado com ele”, avalia outro histórico da sigla.
Disputa interna faz parte da história
A história confirma a análise de que o MDB é, por essência, um partido de disputas internas. “A democracia sempre esteve no DNA do MDB. Por isso, as divergências internas sempre foram normais”, afirma o professor Adelcio Machado, filiado desde os tempos da ditadura militar.
Em 1982, com a volta das eleições diretas para governador após o golpe de 1964, o MDB viveu sua primeira grande disputa interna: Jaison Barreto e Pedro Ivo Campos se enfrentaram nas prévias. Jaison venceu, mas foi derrotado na eleição por Esperidião Amin.
Em 1986, nova disputa. Pedro Ivo venceu Luiz Henrique da Silveira na prévia e acabou eleito governador, derrotando Vilson Kleinübing (PFL) e Amílcar Gazaniga (PDS).
Em 1990 e 1994, Paulo Afonso foi candidato ao governo — perdeu em 1990 e venceu em 1994 — sem disputas internas explícitas. Já em 1998, ao tentar a reeleição, enfrentou Eduardo Pinho Moreira na chamada briga entre palacianos e históricos. Venceu internamente, mas perdeu a eleição.
Outro episódio emblemático ocorreu em 2010. Luiz Henrique da Silveira, ao concluir seu segundo mandato como governador e disputar o Senado, precisou enfrentar Paulo Afonso numa prévia interna. Mesmo com todo o seu capital político, venceu por apenas 60% a 40%.
Mais recentemente, o MDB viveu disputas entre Eduardo Pinho Moreira e Dario Berger — Eduardo venceu e foi vice de Raimundo Colombo — e, em 2022, entre Antídio Lunelli, que defendia candidatura própria ao governo, e a tese de apoio a Carlos Moisés. Prevaleceu esta última, com a indicação de Udo Döhler como vice.






