Morro dos Cavalos: hoje é um dia histórico não pela promessa da obra, mas pela escolha de um rumo

É óbvio e natural da política que o governo Lula, o ministro Renan Filho, a bancada federal catarinense e todas as lideranças do Estado que de alguma forma participaram do processo vão querer capitalizar eleitoralmente o anúncio desta quarta-feira de decisão pela construção de dois túneis no Morro dos Cavalos, em Palhoça, como solução definitiva para o gargalo histórico da BR-101 na região. Da mesma forma, é óbvio e natural da política que os adversários busquem minimizar o impacto de mais uma promessa – especialmente por ser realizada em ano eleitoral.

O abraço de Renan Filho e Kerexu: os indígenas sempre defenderam a solução agora consolidada para a BR-101 no Morro dos Cavalos. Foto: Felipe Brasil, Ministério dos Transportes.

Por isso, quero festejar neste texto algo que está além da obra prometida. Quero exaltar aquilo que a política tem de melhor – que, por incrível que pareça, não é a briga eleitoral, mas encontrar as convergências possíveis para solucionar problemas reais. O governo federal viabilizou a melhor solução solução possível para o Morro dos Cavalos ao negociar a troca de responsabilidade entre as concessionárias da rodovia em Santa Catarina.

Atual responsável pelo trecho, a Arteris tem demandas urgentes para desatar outro nó logístico grave na região entre Porto Belo e Barra Velha, com impacto direto sobre a infraestrutura portuária e de turismo. A Motiva, antiga CCR, concessionária do trecho Sul da BR-101 herda o trecho e toca os dois túneis, com promessa de início das obras ainda este ano.

Ninguém inventou a roda – essa solução já vinha sendo apontada desde o ano passado por entidades como a Federação das Indústrias (Fiesc) como melhor alternativa. Mas, entre a invenção da roda e sua efetiva construção há muito trabalho. Neste caso, envolvendo Ministério dos Transportes, Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), Tribunal de Contas da União e as duas concessionárias. Uma solução acordada entre tantas partes e interesses não é fácil de ser construída.

Há mérito do governo federal, especialmente Renan Filho – talvez o melhor quadro do ministério de Lula. Décio Lima, o petista catarinense mais próximo de Lula, também merece citação.

Também destaco a bancada federal, que pressionou todos os envolvidos e não se contentou com meias soluções. Vou destacar nesse ponto os coordenadores do Fórum Parlamentar Catarinense nos últimos dois anos, Valdir Cobalchini (MDB) e Pedro Uczai (PT), o sempre atento e questionador senador Esperidião Amin (PP) e a onipresente, mesmo quando suplente, Geovânia de Sá (PSDB).

A Assembleia Legislativa esteve junto, quando aprovou um pedido de audiência com Lula que se tornou uma grande reunião de Renan Filho com a política catarinense como um todo, governador Jorginho Mello (PL) incluído, para deixar claro que a solução do Morro dos Cavalos não poderia ficar na fila. Era a promessa do deputado estadual Júlio Garcia (PSD) quando eleito presidente de que o parlamento estadual não ficaria omisso aos temas de infraestrutura, mesmo que envolvesse outras esferas de poder. Fica o registro também da atuação do deputado estadual Sérgio Guimarães (União Brasil), jornalista de perfil popular e sem meias palavras, que atazanou Renan Filho em todas suas vindas a Santa Catarina e talvez tenha sido o primeiro a conseguir traduzir para ele o que significa essa obra para o catarinenses.

No palanque, Renan Filho criticou Jorginho Mello e voltou a fazer desafios sobre obras no Estado. É possível que venha um vídeo em resposta e assim continue azeitada e disputando curtidas a política das redes sociais. Na vida real, até mesmo a proposta improvisada pelo governador de um contorno viário na região – sem estudo ambiental, sem avaliar o impacto sobre a terra e a comunidade indígena da região – também fez parte da pressão do poder político catarinense sobre Brasília.

Hoje é um dia de comemoração a tudo isso que relembrei. Nós que moramos em Santa Catarina fomos acostumados a duvidar de prazos e promessas e faz bem continuarmos com esse ceticismo. Esta quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, é um dia histórico para a infraestrutura do Estado não pela promessa do ministro Renan Filho de que a construção dos dois túneis no Morro dos Cavalos começa ainda este ano. Sobre ela, continuaremos vigilantes e cobrando.

Este dia é histórico porque existe um rumo escolhido, uma decisão tomada: a obra é a construção dos dois túneis; a responsabilidade da obra é da concessionária Motiva e não da Arteris; o financiamento se dará pelo aumento do prazo da concessão; todas as partes estão de acordo. Escolhido o rumo, é hora de seguir em frente.

E para simbolizar o momento, escolhi a imagem do abraço do ministro Renan Filho na liderança indígena Kerexu Yxapyry. Os indígenas guarani que vivem na região sempre defenderam os dois túneis e muitas vezes foram injustamente acusados de serem o entrave para a obra. Em sua passagem pelo Ministério dos Povos Indígenas, no início do governo Lula, coube a ela dar voz pública aos quem eram muito citados e pouco ouvidos. Eles estavam certos.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit