Regra nova, conta velha: janeiro termina com canabidiol liberado e o produtor ainda no aperto

Janeiro se despede com decisões regulatórias que mexem no jogo, mas também com problemas que insistem em ficar.

A saúde avançou com novas regras para a cannabis medicinal; o leite segue sofrendo com importação; o acordo Mercosul–União Europeia começa a mexer até no nome dos produtos; e o crédito tenta ganhar fôlego no campo.

Um fechamento de mês típico do agro brasileiro: avanços reais, desafios persistentes.

Anvisa amplia regras da cannabis medicinal: o que muda e o que ainda vem

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, nesta quarta-feira (28), uma resolução que expande o uso de terapias à base de cannabis no Brasil. É uma mudança relevante para pacientes, indústria e pesquisa.

O que passa a valer agora:

  • liberação de medicamentos por vias bucal, sublingual e dermatológica (antes, apenas oral e inalatório);
  • autorização para venda de canabidiol em farmácias de manipulação;
  • permissão para importação da planta ou de extratos de cannabis para fabricação de medicamentos no país;
  • ampliação do acesso a produtos com THC acima de 0,2% também para pacientes com doenças debilitantes graves (antes restrito a cuidados paliativos ou condições terminais).

O que ainda está em avaliação:

  • autorização para cultivo de cannabis no Brasil com fins medicinais e de pesquisa;
  • possibilidade de plantio controlado em pequena escala, especialmente por associações de pacientes;
  • regras específicas de testagem, rastreabilidade e fiscalização do cultivo.

A Anvisa informou que hoje existem 33 produtos de canabidiol e 16 extratos de cannabis autorizados no país. A decisão amplia o acesso terapêutico e sinaliza maturidade regulatória, mas o capítulo do cultivo ainda é a peça-chave que falta.

Leite em pó importado segue pressionando o produtor brasileiro

Se a saúde avançou, o setor leiteiro segue no sufoco. O leite em pó importado continua pressionando preços e margens em todo o país neste início de 2026.

O tema virou debate quente em live realizada no dia 26, promovida pelo Sistema Faemg/Senar Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais e Serviço Nacional de Aprendizagem Rural, reunindo produtores, sindicatos, cooperativas, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e lideranças políticas. O consenso: a conta não pode seguir caindo sempre no colo do produtor.

Os números explicam a pressão. Em 2025, a captação nacional cresceu 7,9%, enquanto as importações seguiram elevadas. Nos últimos cinco anos, o Brasil importou quase 750 mil toneladas de leite em pó, principalmente de Argentina e Uruguai. A participação do importado no mercado interno saltou de 2%, 4% para 8%, 10% desde 2022.

Santa Catarina reage e sanciona lei de proteção ao produtor

Enquanto o debate nacional avança lentamente, Santa Catarina foi além. O governador Jorginho Mello sancionou a lei que proíbe a reconstituição e comercialização de leite em pó importado como leite fluido no estado.

A medida fortalece a cadeia produtiva local e combate a concorrência desleal. O projeto é de autoria do deputado estadual Oscar Gutz (PL), com proposta apensada do deputado Altair Silva (PP).

Santa Catarina é o 4º maior produtor de leite do país, com 24,5 mil produtores e 3,3 bilhões de litros/ano – 9% da produção nacional.

Além da lei, o estado mantém programas como Leite Bom SC e Terra Boa, voltados a crédito, juros subsidiados e melhoria de pastagens.

Conseleite SC divulga preço de fevereiro

O Conseleite Conselho Paritário Produtor/Indústria de Leite de Santa Catarina definiu o valor de referência do leite para fevereiro em R$ 2,03/litro, queda de 1% em relação ao mês anterior.

O presidente do Conseleite, Selvino Giesel, destacou sinais tímidos de reação em alguns derivados, como leite UHT e certos queijos, mas alertou que excesso de oferta e importações seguem pressionando. O setor cobra ampliação da compra pública e avanço nas investigações antidumping.

Mercosul–UE: produtos brasileiros que não poderão ser “imitados”

O acordo entre Mercosul e União Europeia vai muito além de tarifas. O tratado protege Indicações Geográficas (IGs) e impede a imitação de produtos fora de sua região de origem.

O Brasil terá 37 IGs protegidas na Europa entre elas Café da Alta Mogiana, Queijo Canastra, Vale dos Vinhedos e Pampa Gaúcho. Produtos sem origem certificada não poderão usar esses nomes no mercado europeu.

No Brasil, alguns nomes europeus terão prazo de adaptação (de 5 a 10 anos), como Champagne, Feta, Bordeaux e Prosciutto di Parma. Outros, como Parmesão e Gorgonzola, seguem permitidos para quem já usava o termo antes da vigência do acordo.

Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, a proteção das IGs agrega valor e pode impulsionar renda regional desde que o comitê de propriedade intelectual do acordo saia do papel.

Bayer injeta R$ 1 bilhão em crédito para o agro

Fechando a semana, a Bayer concluiu captação de R$ 1 bilhão para ampliar a oferta de crédito na divisão agrícola no Brasil. A operação, estruturada pelo Rabobank Brasil, envolve:

  • R$ 700 milhões em reais;
  • US$ 50 milhões em dólar, voltados a produtores com receita atrelada ao mercado externo.

Os recursos usam FIAGRO-FIDC para financiar distribuidoras, cooperativas e produtores na compra de insumos e defensivos, com prazos alinhados ao ciclo das safras. É fôlego financeiro num momento em que crédito virou insumo estratégico.

Janeiro fecha com avanço regulatório e velhos gargalos

O mês termina com a saúde avançando na regulação, o mercado mexendo nos nomes dos produtos e o crédito tentando aliviar o caixa.

Mas o produtor de leite segue pagando a conta de um problema estrutural que pede solução nacional não remendo local.

Fevereiro começa com o Congresso de volta ao jogo, na próxima semana. E o agro, como sempre, já está na mesa.

Adeus, janeiro, e uma excelente sexta-feira, AgroAmigos.

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