Para esta segunda coluna do ano, eu queria escrever sobre o estarrecedor caso do cachorro Orelha, barbaramente assassinado em Santa Catarina, episódio que ganhou repercussão nacional, quiçá mundial.

Mas abri mão do tema por dois motivos igualmente relevantes. Primeiro, porque as colegas colunistas aqui do portal, Déborah Almada e Soledad Urrutia, já escreveram sobre o assunto, esgotando praticamente tudo o que eu poderia acrescentar especialmente do ponto de vista da comunicação e das redes sociais. Segundo, porque, do ponto de vista pessoal, caso eu expusesse minha opinião sincera sobre o destino dos jovens assassinos, e certamente o faria, seria definitivamente cancelado por parte dos leitores.
Portanto, desistir do tema foi a melhor opção. Até porque outro assunto quentíssimo dominou o noticiário político anteontem.
Como o nobre leitor, sempre bem informado sobre os assuntos políticos, certamente já sabe, o prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, foi alvo de uma operação da Polícia Federal por supostas irregularidades em contratos de fornecimento de insumos para a rede pública de saúde. E sua primeira reação à visita da PF à sua casa foi responder prontamente com um vídeo de pouco mais de três minutos.
E aqui já adianto a conclusão a que chegarei ao final da coluna: do ponto de vista informativo, o vídeo não explica absolutamente nada.
No entanto, do ponto de vista comunicacional, ele é extremamente eficiente. Sim, por incrível que possa parecer, na comunicação essas duas coisas podem coexistir.
No vídeo, Allyson não esclarece a operação, não apresenta fatos novos e tampouco conecta, de forma objetiva, o decreto que editou em 2023, citado em sua fala, com a ação da Polícia Federal. Quem assistiu ao vídeo esperando informações concretas saiu frustrado.
Mas quem assistiu com olhar de comunicação, como eu fiz, entende o jogo.
E é justamente neste ponto que reside a discussão que me interessa e me motivou a escrever esta coluna.
Vivemos repetindo que comunicação é transparência, esclarecimento e prestação de contas. Tudo isso é verdade. Mas gestão de crise, especialmente no curto prazo, obedece a outra lógica, menos nobre e muito mais pragmática.
Crises, via de regra, não começam no conteúdo, e sim na presença.
E, nesse ponto, o prefeito fez o básico muito bem feito.
Ele apareceu publicamente com celeridade, não tendo fugido nem se escondido. Gravou o vídeo em sua casa, onde, segundo ele, recebeu a Polícia Federal com cordialidade. Manteve semblante tranquilo, postura segura e tom de voz firme na gravação, com performance semelhante à dos demais vídeos que costuma produzir para divulgar os feitos da gestão.
Em nenhum momento acusou o golpe ou atacou a investigação. Sobretudo, não demonstrou nervosismo, indignação teatral ou vitimismo descontrolado. Diferentemente do que fez o prefeito (ou ex?) de Sorocaba, Rodrigo Manga, em situação semelhante.
A comunicação não verbal, contida e firme ao mesmo tempo, falou mais alto do que qualquer frase.
O texto do vídeo é correto, ainda que evasivo. Allyson invoca fé, família, superação, justiça e coragem. Nada disso esclarece o caso, mas conversa diretamente com a narrativa que ele construiu ao longo da própria trajetória política: a do outsider político, do cara comum que venceu obstáculos e enfrentou o sistema.
O vídeo não foi improviso. Foi coerência narrativa.
Em nenhum momento ele explica o motivo da operação. Mas deixa no ar a suspeita de timing político, já que é pré-candidato ao governo do Rio Grande do Norte. Em nenhum momento diz o que está errado ou certo, mas reafirma seus valores. Em nenhum momento entrega fatos, mas entrega identidade.
O resultado é simples e desconfortável: ele não informou nada, mas comunicou muito.
E isso precisa ser dito sem hipocrisia.
Devo dizer que conheço Allysson pessoalmente. Já estive em Mossoró, conheço membros de sua equipe e admiro genuinamente sua trajetória inspiradora e sua comunicação acima da média. Isso, evidentemente, não me autoriza a entrar no mérito jurídico da investigação. Esse debate pertence à Justiça.
Meu papel aqui é outro.
Como analista de comunicação, é impossível ignorar que o vídeo funcionou exatamente porque não tentou explicar demais. Ele cumpriu um objetivo claro: comprar tempo.
E aqui entra uma verdade desconfortável, porém realista.
Comunicação não substitui esclarecimento.
Mas, no curto prazo, performance e narrativa compram tempo.
Tempo para organizar a defesa, para a poeira baixar e para a crise deixar de ser apenas emocional. Quem acha isso bonito ou feio, pouco importa. É assim que crises políticas funcionam.
O erro mais comum em momentos como esse é achar que um vídeo precisa resolver tudo. Ele precisa, antes de tudo, não piorar a situação. E, nesse quesito, o prefeito foi eficiente.
Isso não significa que a conta não chegue. Significa apenas que ela foi adiada.
No fim das contas, o caso de Mossoró não é sobre explicar um decreto ou responder a uma operação. É sobre entender que, em política, especialmente em tempos de redes sociais, a percepção antecede o fato.
E quem domina a percepção, ainda que provisoriamente, ganha fôlego.
A pergunta que fica não é se o vídeo esclareceu. É se ele comprou tempo suficiente. E comprou.
Porque tempo, em crise, vale mais do que qualquer explicação mal dada.
Ficaram curiosos? O vídeo está lá na rede dele, @allysonbezerra.rn.





