A arquibancada mudou de lugar

Quem fala sozinho informa o torcedor. Quem conversa constrói lealdade com a torcida

Durante décadas, clubes falaram com seus torcedores do mesmo jeito: nota oficial, entrevista coletiva, rede social usada como mural de avisos. Comunicação era emissão. Nunca relação. O torcedor recebia, consumia e seguia. Sem diálogo. Sem bastidor. Sem acesso.

O anúncio do Arsenal ao firmar parceria com plataformas da Meta não é apenas um movimento comercial. É um reconhecimento tardio, mas necessário, de que o futebol mudou de endereço. Parte da arquibancada hoje cabe no bolso. E quem não ocupa esse espaço, perde relevância.

Ao transformar WhatsApp e Facebook em ambientes de convivência digital, o clube assume que o torcedor não quer apenas informação. Quer pertencimento. Quer sentir que faz parte do processo, da rotina, da construção. Bastidores, histórias internas e experiências exclusivas não são mimos. São ferramentas de fidelização emocional.

Essa mudança dialoga com um ponto central do esporte moderno: o torcedor deixou de ser audiência passiva e passou a ser comunidade ativa. Ele comenta, compartilha, reage, cobra e defende. Ignorar isso é tratar a relação como nos anos 1990, quando o jogo acabava no apito final. Hoje, o jogo continua antes, durante e depois, no digital.

Não por acaso, outras grandes organizações esportivas já entenderam esse caminho. Fórmula 1, NBA e UFC transformaram tecnologia em ponte afetiva. Não se trata apenas de realidade virtual ou aumentada, mas de proximidade. De acesso. De narrativa contínua. O esporte virou experiência permanente, não evento isolado.

Em Santa Catarina, clubes tradicionais como Avaí, Figueirense, Chapecoense, Criciúma e Joinville convivem com limitações esportivas, financeiras e institucionais. Justamente por isso, a comunicação pode ser o primeiro passo de uma modernização possível. Abrir a mente, investir em proximidade e tratar o torcedor como parte do processo ajuda a construir futuro mesmo em meio ao caos.

A parceria do Arsenal expõe uma verdade simples: hoje, comunicar é cuidar da relação. Quem fala sozinho informa. Quem conversa constrói lealdade. No futebol moderno, não vence apenas quem investe melhor em campo, mas quem entende que o torcedor quer ser mais do que espectador. Quer ser parte do processo.

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