Artigo de Vivian Ritter, pós-Doutorada em Direito e Filosofia, Psicanalista e Especialista em Neurociência, Comportamento e Desempenho

No universo digital, onde tudo se renova em questão de minutos, aderir a uma trend virou quase um reflexo automático. Um desafio, uma pose específica, uma dancinha, um áudio em alta, basta surgir algo novo para que milhares de pessoas, em diferentes partes do mundo, postem versões próprias em uma velocidade impressionante. Se atrasou, perdeu o timing. E, nas redes sociais, estar fora do timing é quase como estar fora da conversa.
A sensação é de que existe uma força invisível guiando esse comportamento coletivo, empurrando usuários a reproduzir postagens sem nem sequer refletir sobre o porquê de estarem fazendo aquilo. Essa adesão instantânea não é coincidência, pois a velocidade é parte do mecanismo. Quanto mais rápido reagimos, menos pensamos e mais seguimos o fluxo.
Mas, afinal, o que motiva tanta urgência em participar de uma tendência? A busca por visibilidade? A pressão social? A vontade de pertencer? A promessa de conexão instantânea?
A adesão às trends parece responder a tudo isso ao mesmo tempo. Somos movidos por recompensas rápidas como curtidas, comentários, novos seguidores. Cada pequeno estímulo atua como um gatilho que ativa a sensação de acolhimento e pertencimento. É dopamina imediata. Ao contrário de processos lentos e consistentes, como manter uma rotina de estudos, praticar exercícios ou seguir uma dieta, as trends oferecem retorno quase instantâneo. Postou, recebeu atenção. É simples, fácil e viciante.
O resultado é um fenômeno curioso onde milhões de pessoas repetem comportamentos idênticos, quase simultaneamente, sem questionar o impacto desse movimento.
Nosso cérebro gosta de certezas e se todos estão indo para um lado, isso diminui minha incerteza e tendo a segui-los.
E seguir essa maré sem reflexão pode ter efeitos silenciosos. Entre eles, o aumento da ansiedade, a comparação constante, a sensação de inadequação e um distanciamento crescente da própria identidade. A repetição coletiva transforma o indivíduo em mais um entre tantos e não exatamente em alguém único.
O medo de parecer “desatualizado” também pesa. No mundo digital, controlar o impulso ou simplesmente decidir não participar pode gerar a percepção de que estamos “ficando para trás”. E ninguém quer ser visto como analógico num ambiente que valoriza velocidade e instantaneidade. Talvez o primeiro passo para romper esse ciclo seja lembrar do conselho clássico das mães que, curiosamente, vale ainda mais na era das redes sociais: “Você não é todo mundo.”
Aceitar que nem toda tendência precisa ser seguida é uma forma de recuperar a autonomia e redefinir o que realmente faz sentido para cada um. Afinal, ao fundo de cada trend replicada, há também o grito silencioso de milhares de pessoas dizendo “Eu também estou aqui”.
E, às vezes, existe mais verdade,identidade e liberdade em permanecer em silêncio do que em repetir o coro.






