A Polarização Inédita de Sempre. Por Bruno Oliveira

Artigo de Bruno Oliveira, Secretário de Comunicação de Santa Catarina 

Há uma tentação recorrente em cada geração: acreditar que o seu tempo é excepcional. Que os conflitos atuais são inéditos, que a divisão nunca foi tão profunda e que o país nunca esteve tão polarizado. A história, no entanto, insiste em nos contrariar. Desde a Antiguidade, o mundo se move em ciclos. Impérios surgem, se expandem, entram em disputa interna, colapsam e dão lugar a novas ordens. Guerras, lutas por poder, embates ideológicos e disputas morais não são desvios do percurso histórico, mas o próprio motor da história humana. O que muda não é a existência do conflito, mas a forma como ele se manifesta e é percebido.

No Brasil, essa lógica sempre esteve presente. A ideia de que o país teria se dividido apenas recentemente ignora sua própria formação. No Império, o embate se dava entre conservadores e liberais. Na Primeira República, entre oligarquias regionais com projetos distintos de poder. Durante a Era Vargas, o país se dividiu entre nacional-desenvolvimentismo, liberalismo econômico e movimentos de inspiração socialista. Mesmo no período da ditadura militar, a polarização era clara: de um lado o regime, de outro a resistência política e intelectual. Direita e esquerda sempre existiram, ainda que sob outras nomenclaturas, disputando espaço, poder e narrativa.

O erro contemporâneo está em confundir visibilidade com intensidade. A polarização atual parece maior não porque as pessoas passaram a pensar de forma mais radical, mas porque nunca tiveram tanto poder de expressão. Antes das redes sociais, a opinião política circulava de maneira limitada, restrita a jornais, rádios, televisão e círculos sociais específicos. O cidadão comum discordava, se indignava e tomava partido, mas sua voz raramente ultrapassava o espaço privado ou local. Hoje, uma opinião individual pode alcançar milhares ou milhões de pessoas em segundos. Algoritmos premiam o engajamento, e o engajamento nasce do conflito, da indignação e da reação emocional. O que sempre existiu foi amplificado, não criado.

A sensação de um país irremediavelmente rachado é, em grande parte, um efeito óptico. Estamos vendo tudo, o tempo todo, sem filtros. A história mostra que sociedades não caminham em linha reta. Elas oscilam, alternam períodos de estabilidade e ruptura, consenso e confronto. O Brasil não se tornou um país polarizado. Ele apenas ganhou espelhos mais potentes. A história não se repete de forma idêntica, mas rima! E quem ignora seus ciclos corre o risco de interpretar o presente como exceção, quando ele é, na verdade, continuidade.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit