A política virou palco. Mas quem ainda está assistindo?

Foi durante a aula inaugural da diplomatura em comunicação política da Universidade de Buenos Aires que essa reflexão começou a martelar. Entre provocações e análises, uma ideia ficou ecoando: talvez a gente esteja falando demais sobre comunicação política — e pensando de menos sobre o que ela realmente significa.

Nunca se produziu tanto conteúdo. Nunca houve tantas estratégias, pesquisas, storytelling, redes sociais, neuromarketing. Mas, paradoxalmente, parece que estamos mais distantes do que nunca da essência do comunicar na política.

A comunicação virou ferramenta. Estratégia. Tática. Técnica. Tudo a serviço de convencer, aparecer, vencer. Como se bastasse ajustar a linguagem, escolher a plataforma certa, rodar uma pesquisa de opinião. Como se comunicar fosse um atalho — e não um processo. Como se a política fosse só o que aparece — e não o que se constrói coletivamente.

Somos cada vez mais comunicadores que sabem fazer campanhas, mas não sabem pensar o espaço público. E políticos que falam o tempo todo, mas quase nunca dizem algo com densidade.

A política virou performance. A comunicação virou espetáculo. E o sujeito — aquele que pensa, age, se coloca em relação — foi sumindo da equação. O cidadão vira dado. O eleitor, um clique. A opinião pública, uma curva no gráfico. A diferença, o conflito, o diálogo — tudo isso vai perdendo espaço.

Mas talvez seja hora de lembrar: comunicar na política não é só transmitir uma mensagem. É produzir sentidos. É abrir espaço para o dissenso. É reconhecer que a política nasce do encontro — e do desencontro — entre pessoas que querem construir algo em comum, mesmo partindo de lugares diferentes.

Por isso, mais do que um recurso, a comunicação é condição de possibilidade da política. É pela comunicação que colocamos o mundo em comum, que disputamos o que ele pode ser, que fazemos o esforço de escutar — e sermos escutados.

Esse chamado à reflexão me pegou de surpresa hoje. E ficou comigo. Porque, no fundo, quem ainda acha que comunicar é só fazer post, gravar vídeo e rodar pesquisa… ainda não entendeu o básico: política sem conflito não é política. E comunicação sem sujeito não é comunicação.

Essa reflexão foi inspirada por ideias do artigo “Siete tesis sobre comunicación y política”, de Sergio Caletti, apresentado na diplomatura em comunicação política da UBA.

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