Artigo de Ingrid Sateré Mawé, vereadora de Florianópolis

Durante anos, a crise climática foi tratada como um problema distante, restrito ao futuro. Hoje, ela se impõe com força no presente. Ciclones, temporais intensos, micro explosões atmosféricas, enchentes e deslizamentos já fazem parte da realidade de Santa Catarina e de muitas outras regiões do Brasil. Famílias perdem suas casas, cidades entram em colapso, o medo se instala. A pergunta que se repete é inevitável: até quando vamos reagir apenas depois do desastre, em vez de prevenir?
A resposta exige honestidade. Não falta conhecimento, não faltam dados, nem exemplos de políticas bem-sucedidas. O que falta é decisão política.
O clima mudou, mas nossas cidades não acompanharam essa transformação. Seguimos planejando como se eventos extremos fossem exceção, quando já se tornaram recorrentes. Continuamos ocupando áreas de risco, impermeabilizando o solo, canalizando rios e destruindo mangues e restingas. Depois, nos surpreendemos quando a água invade casas, quando encostas cedem ou quando o calor extremo compromete a saúde da população.
Diante desse cenário, torna-se urgente construir e implementar um plano de adaptação climática real, palpável e executável. Um plano voltado para o clima que já existe, e não para um cenário idealizado que já ficou para trás.
Adaptar não significa apenas responder melhor às tragédias. Adaptar é prevenir, planejar e proteger vidas antes que elas estejam em risco. Isso implica rever a forma como ocupamos o território e, sobretudo, reconhecer que trabalhar com a natureza é mais eficaz do que insistir em enfrentá-la.
As chamadas Soluções Baseadas na Natureza demonstram que é possível reduzir riscos, proteger a população e, ao mesmo tempo, otimizar recursos públicos. Parques alagáveis e parques lineares ajudam a conter cheias. A preservação das planícies alagáveis, como os manguezais, frequentemente suprimidos por grandes empreendimentos, permite que a água siga seu curso natural. As restingas precisam ser integralmente protegidas, pois cumprem papel fundamental na contenção da erosão costeira.
A arborização urbana contribui para reduzir as ilhas de calor, melhorar a drenagem e prevenir enxurradas. A preservação das matas ciliares e a renaturalização dos rios reduzem enchentes e melhoram a qualidade da água. Jardins filtrantes, bem como a captação e o reuso da água da chuva, auxiliam tanto em períodos de chuvas intensas quanto de estiagem. O fortalecimento das Unidades de Conservação é medida básica e indispensável, para prevenir deslizamentos, erosões e colapsos ambientais.
A adaptação climática, no entanto, não pode ser pensada dissociada da justiça social. Não existe plano eficaz sem políticas públicas de moradia digna, fora das áreas de risco. Em locais onde a ocupação não é segura, hortas comunitárias podem substituir construções precárias, garantindo soberania alimentar e uso adequado do território. Encostas devem ser reflorestadas com técnicas de bioengenharia, que aliam conhecimento técnico e soluções naturais para estabilizar o solo.
Essas medidas não pertencem ao campo da teoria. Cidades como Santos e Niterói já adotam estratégias de reflorestamento, bioengenharia e soluções baseadas na natureza, com resultados concretos na redução de riscos em áreas vulneráveis. Os exemplos mostram que prevenir é possível e significativamente mais barato do que reconstruir após as tragédias.

Falar de adaptação climática é falar de escolhas. E essas escolhas não são neutras. Sem adaptação, quem paga a conta primeiro são sempre os mesmos: populações periféricas, povos indígenas, comunidades tradicionais, mulheres e famílias que vivem onde o Estado historicamente falhou em chegar com planejamento e cuidado.
A crise climática é também uma crise de governança. Não é mais aceitável conviver com planos que permanecem no papel, promessas vazias ou ações emergenciais apenas depois do desastre. Adaptar é uma função central do poder público. O contrário disso é adiar decisões e empurrar o problema para a próxima chuva, o próximo verão extremo, a próxima sirene da Defesa Civil.
O clima já deu seus avisos. As soluções existem.
Agora, a responsabilidade é política.






