Alexandre de Moraes, Banco Master e a crise do jornalismo que virou colunismo. Por Maurício Locks

Artigo de Maurício Locks, jornalista

A polêmica envolvendo Alexandre de Moraes, Banco Master e o vazamento do contrato da esposa do ministro revela menos sobre o episódio em si e mais sobre um problema estrutural do jornalismo brasileiro. As redações encolheram, a reportagem perdeu espaço e o colunismo ocupou o centro do debate público. Isso altera o modo como a sociedade recebe informações e interpreta fatos.

Historicamente, a reportagem foi a base do jornalismo. É ela que apura, confronta versões, estrutura evidências e constrói credibilidade. Hoje, esse papel é reduzido. Em seu lugar, cresce o protagonismo de colunistas, que atuam com outra lógica. Dependem de fontes privilegiadas, mantêm relações constantes com agentes de poder e operam num ambiente de disputas narrativas. Isso amplia o risco de enviesamento e transforma bastidores em produto principal.

O caso Banco Master se insere nesse contexto. A revelação surgiu por meio de uma colunista de grande relevância, e rapidamente o debate passou a girar em torno de interpretações, não de uma apuração ampla, técnica e aprofundada. Ao mesmo tempo, o banco investiu fortemente em estratégias de comunicação e relacionamento com formadores de opinião. Isso ajuda a definir quem fala, quando fala e como fala. O campo informacional deixa de ser neutro.

Houve contrapontos, inclusive de outros colunistas, o que reforça a ideia de que vivemos uma disputa entre versões mediada por figuras individuais, e não um processo sustentado por investigação jornalística robusta. É sintoma de um modelo pressionado por custos, urgência e audiência.

O episódio mostra o centro do problema. Antes de ser um caso sobre Moraes ou sobre o banco, é um retrato da crise do jornalismo que trocou a reportagem pelo colunismo. E quando a opinião chega antes dos fatos, o debate público perde profundidade e a sociedade perde referência.

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