Toda vez que um político de direita ousa contrariar qualquer ideia, gesto ou desejo da família Bolsonaro, os analistas rapidamente puxam da memória o destino do ex-governador Carlos Moisés. Eleito na onda bolsonarista de 2018, rompeu com o clã, não se reelegeu e acabou empurrado para um discreto ostracismo político.

Depois de Moisés, dois nomes do campo político do governador Jorginho Mello (PL) resolveram desafiar o roteiro: a deputada estadual Ana Campagnolo e o deputado federal Jorge Goetten. Foram os únicos políticos influentes da base do governador a se manifestarem publicamente contra a candidatura do ex-vereador carioca Carlos Bolsonaro ao Senado por Santa Catarina.
O próprio Jorginho Mello, quando a notícia começou a circular, optou pelo silêncio público. Nos bastidores, porém, deixou escapar o incômodo. E não era para menos. Sua chapa para a reeleição parecia desenhada: um vice do MDB e, para o Senado, Carol de Toni e Esperidião Amin (PP). A importação de Carlos Bolsonaro bagunçou o tabuleiro — a ponto de obrigar o governador a dispensar Carol de Toni, a deputada federal mais votada de 2022, hoje com um pé fora do PL e outro no Novo.
Ana Campagnolo fez o que quase ninguém no partido teve coragem. Tornou público, em entrevista, um sentimento que circulava nas bases:
“A minha preferência é que os catarinenses sejam representados por pessoas que têm história e trabalho em Santa Catarina”.
Questionada se não temia represálias do bolsonarismo, respondeu sem rodeios:
“Com relação à minha base, não tenho preocupação nenhuma. Tenho certeza que os meus 75 vereadores, secretários, vice-prefeitos e prefeitos são 100% leais. Não tenho medo nenhum. É assim que as coisas se constroem: de baixo para cima. Por isso sou contra o autoritarismo”.
Bastou o posicionamento para que os ataques começassem. Os filhos de Bolsonaro foram os primeiros a “enquadrá-la”, deixando claro quem acredita mandar no jogo.
Jorge Seif, o senador catarinense e fã declarado da Madonna, disparou da tribuna do Senado:
“Agora vem uma deputada estadual que não era nada até ontem, era uma professora. Agora está se achando líder da direita em Santa Catarina, falando contra o filho do presidente Bolsonaro”.
A pergunta implícita é reveladora: como alguém que era “apenas uma professora” ousa contrariar o filho do ex-presidente? O episódio escancara a lógica do bolsonarismo — onde pedigree político parece valer mais do que voto.
Vale lembrar: Ana Campagnolo foi eleita em 2018 com pouco mais de 34 mil votos e, em 2022, quebrou todos os recordes da história da Alesc, com mais de 196 mil votos. Pode-se discordar de suas ideias, mas respaldo popular — pilar básico de qualquer democracia representativa — definitivamente não lhe falta.
Um deputado federal nem sempre alinhado
Outro aliado de Jorginho Mello que contrariou as hostes bolsonaristas foi Jorge Goetten. Em entrevista recente, tripudiou — sem rodeios — a candidatura de Carlos Bolsonaro:
“No final, vai valer a vontade do catarinense. Eu sinto isso. Ando nas ruas, rodo o estado e percebo nas lideranças. A vontade do povo catarinense é votar em candidatos de Santa Catarina”.
Goetten defende que a chapa ao Senado, ao lado de Jorginho, tenha Carol de Toni e Esperidião Amin. “Santa Catarina não pode abrir mão de um político do quilate de Amin”, disse ao portal Upiara.net.
Antes da onda bolsonarista, Goetten já era do PL (à época, PR). Seu irmão, Nelson Goetten — hoje fora da política — presidiu o partido antes de Jorginho. Em 2018, concorreu a deputado federal em coligação com o MDB e ficou na segunda suplência, com pouco mais de 61 mil votos.
Entre 2018 e 2022, trabalhou ativamente na reorganização do partido ao lado de Jorginho Mello. Em 2020, montou base municipal. Em 2022, colheu os frutos: elegeu-se deputado federal com 159 mil votos, terceiro mais votado do estado.
No início do mandato, mesmo sob críticas ferozes do bolsonarismo, votou com o governo Lula em algumas matérias. Também se posicionou contra os bloqueios de rodovias após as eleições de 2022 e condenou os atos golpistas de 8 de janeiro.
Em 2024, numa manobra política de Jorginho Mello, o Republicanos — então comandado por Carlos Moisés em Santa Catarina — passou para as mãos de Goetten, que iniciou nova articulação partidária. Continua aliado do governador e na oposição ao governo federal, mas insiste em dizer que atua “com coerência e nos interesses de Santa Catarina”.
Em tempos de cancelamentos, linchamentos virtuais e testes constantes de lealdade ideológica, resta saber como o eleitor catarinense reagirá às posições de Ana Campagnolo e Jorge Goetten — ambos contrários à importação de Carlos Bolsonaro para disputar uma vaga no Senado pelo Estado.
Em outubro, as urnas respondem.






