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15 de abril de 2024

Bolsonarista importado na FCC é uma escolha de Jorginho que atravessa o samba

Pelos critérios do Dorival Caymmi, o governador catarinense Jorginho Mello (PL) é um bom sujeito. Afinal, ele gosta tanto de samba que já foi até enredo em escola no belo carnaval de Joaçaba. Ruim da cabeça ou doente do pé, na classificação cayminiana, é Rafael Nogueira, o nome indicado pelas bolsonaristas Caroline de Toni e Ana Campagnolo para comandar a Fundação Catarinense de Cultura (FCC) – inicialmente aceito pelo governador e pronto para assumir o cargo. Bolsonarista na política e olavista na filosofia, Nogueira comandou a Biblioteca Nacional e foi secretário nacional de Economia Criativa e Diversidade Cultural da Secretaria Especial de Cultura na presidência de Jair Bolsonaro (PL).

O quase presidente da FCC não gosta de carnaval. Segundo ele, em publicações antigas de sua conta no Twitter, apagada nesta sexta-feira, a festa popular é um evento em que “vai todo mundo correndo (…) trocar fluídos e pegar herpes, gonorreia, sífilis, Aids”. Ou, em resumo, como ele mesmo disse em outra postagem, “o Carnaval é uma bela merda”. Foi além, o quase comandante da cultura catarinense, em 2013: “Ainda bem que não estou nessa cloaca fedida que é o Brasil na época do carnaval”.

Questionado pela repórter Sofia Mayer, do G1 SC, ele minimizou as declarações de quatro anos atrás. Disse que a festa é importante para a economia brasileira e destacou que “Santa Catarina terá festas memoráveis”. Claro que ninguém é obrigado a gostar do Carnaval e nem de samba – apesar de que a definição de Caymmi costuma ser bastante certeira. Também ninguém deve ficar chocado que o governo de Jorginho Mello aceite indicações de bolsonaristas para composição de governo, mesmo que importados de outros Estados. Santa Catarina é um Estado majoritariamente bolsonarista e elegeu um governador bolsonarista. Quem planta abacate não colhe mamão, já dizia um experiente político local.

Desde que a colega Maga Stopassoli revelou, após conversa com Ana Campagnolo na Assembleia Legislativa, que Rafael Nogueira assumiria a FCC, a indicação tem sido questionada no setor cultural. Um abaixo-assinado foi aberto, há promessas de ocupação do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis, como protesto. Claro que há rejeição ideológica – o setor, em média, é antibolsonarista e também não morre de amores por Jorginho. O barulho, no entanto, está sendo ouvido. O governador teria escutado das parlamentares que indicaram Nogueira que não haveria risco de incômodo na nomeação. Deixou claro, logo de cara, que não aceitaria, se fosse o “ator bonitinho”. Uma referência ao ex-ministro Mário Frias, que nem precisaria, foi eleito deputado federal por São Paulo.

A ideia de que Santa Catarina pudesse ser um repositório de bolsonaristas de outros Estados que ficaram na chuva com a derrota de Jair Bolsonaro na tentativa de reeleição foi bastante cultivada no período de transição, mas não havia sido confirmada. A maior pressão foi pela nomeação do ex-superintendente da Polícia Rodoviária Federal (PRF), Silvinei Vasquez, para comandar a Segurança Pública no Estado. Jorginho suportou a pressão, que teve direito a telefonemas do Palácio do Planalto, é importante ressaltar.

Ao aceitar Nogueira para uma órgão em que ele ainda não tinha um nome definido, Jorginho deve ter achado barato contentar Carol de Toni e Ana Campagnolo, duas representantes do bolsonarismo mais radical, com um nome aparentemente discreto – não se registraram polêmicas em sua passagem pela Biblioteca Nacional. Não contava que ele tivesse atravessado o samba assim. E Jorginho gosta de samba, gosta de carnaval, como todos sabemos. Nos próximos dias, veremos se Nogueira terá que aprender a sambar para confirmar o abrigo em Santa Catarina.


Sobre a foto em destaque:

Jorginho Mello gosta de samba. Foto: Cristiano Andujar, SECOM.

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