O agro entrou em 2026 com cara de segunda-feira chuvosa, sem café e sem mate.

O crédito segue caro, as renegociações viraram armadilha, o frete passou a ser vigiado por algoritmo e até o mel catarinense — produto de excelência — corre risco de encalhar no mercado internacional.
O discurso de sustentabilidade avança, mas, na prática, o produtor começa o ano pressionado por juros altos, regras duras e um cenário financeiro que transforma margem em exceção. É nesse ambiente que o campo tenta produzir, pagar contas e seguir em frente.
Crédito rural começa o ano sob estresse financeiro
O estresse financeiro do agro deve piorar ao longo do primeiro semestre de 2026. É o que aponta levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), com base em dados do Banco Central.
Segundo a entidade, a carteira de crédito rural no Brasil atingiu R$ 812,7 bilhões em novembro de 2025, um crescimento de 12,3% em pouco mais de um ano. O problema está na qualidade dessa expansão: R$ 123,6 bilhões desse total já são classificados como carteira estressada — contratos em atraso, inadimplentes, prorrogados ou renegociados.
Entre julho de 2024 e novembro de 2025, enquanto o crédito regular cresceu apenas 5,8%, o volume sob estresse saltou 71%, concentrado principalmente entre abril e novembro do ano passado.
Para cada R$ 1 de lucro, o produtor paga R$ 3 em juros
O dado mais alarmante do estudo da Farsul resume o drama vivido no campo: para cada R$ 1 de lucro, o produtor está pagando R$ 3,33 em juros.
De acordo com o economista-chefe da entidade, Antônio da Luz, o problema central não é safra nem preço, mas taxa de juros elevada combinada com desequilíbrio fiscal. Mesmo produtores ativos chegam a comprometer entre 6% e 8% da receita apenas com juros, enquanto a margem líquida caiu para algo entre 2% e 3% — tornando o negócio inviável no médio prazo.
A projeção da Farsul é de que o estresse não será resolvido em 2026, mesmo com eventual queda da Selic. A defasagem entre decisões do Copom e seus efeitos no crédito mantém o produtor preso a um ciclo de aperto.
Renegociar virou esteira de academia
Outro ponto crítico é a forma como as renegociações vêm ocorrendo. Em 2025, 36,2 mil contratos foram renegociados, somando R$ 28,2 bilhões. Mas apenas 19% desse volume usou recursos públicos equalizados. O restante — 81% — ocorreu com recursos livres, a juros de mercado.
Na prática, o produtor corre, corre… e o saldo devedor continua lá — maior e mais resistente. A Farsul cobra uma solução estrutural e cita o PL 5.122/2023, que permitiria usar até R$ 30 bilhões do Fundo Social do Pré-Sal para renegociar dívidas com juros mais baixos.
MP “legaliza a ilegalidade” e expõe produtor
A crítica mais dura vem do campo jurídico. Advogados e produtores rurais classificam a Medida Provisória nº 1.314/2025 como um divisor perigoso. Para ele, a norma flexibilizou a negociação de juros sem estabelecer teto, abrindo espaço para abusos.
“Essa MP legalizou uma ilegalidade. Se o produtor assinar, o banco pode cobrar o que quiser”, afirmam. Contratos com juros de 30% a até 62% ao ano passaram a ser respaldados por mudanças recentes na legislação, que alteraram o entendimento histórico da Lei da Usura.
O resultado é dramático: uma família de produtores do norte do RS, enquadrada no Pronaf, viu uma dívida inicial inferior a R$ 150 mil saltar para R$ 1,1 milhão em cinco anos — um crescimento de 700% após sucessivas renegociações com juros livres.
ANTT reforça piso mínimo de frete e aperta fiscalização eletrônica
No transporte, o recado é claro: a fiscalização será mais precisa. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) divulgou um compilado esclarecendo as principais dúvidas sobre o Piso Mínimo de Frete, com foco na aplicação correta da tabela e na intensificação do controle eletrônico.
O piso se aplica a operações de carga lotação realizadas por veículos a diesel, envolvendo transportadores autônomos, empresas e cooperativas. Carga fracionada não entra na regra.
Com o novo layout do Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais (MDF-e), em vigor desde outubro de 2025, a ANTT passou a cruzar automaticamente informações de pagamento, NCM da carga, CIOT, NF-e e CT-e. O valor informado deve ser líquido, com pedágio declarado separadamente.
Na subcontratação, a responsabilidade é de quem contrata o transportador que executa o serviço. E no frete de retorno obrigatório, aplica-se a regra dos 92% do coeficiente de deslocamento.
A mensagem é direta: erro de preenchimento virou multa — e o algoritmo não perdoa.
Mel de Santa Catarina corre risco de encalhar
Enquanto o crédito aperta e o frete é vigiado, o mel catarinense enfrenta ameaça real no mercado externo. O produto ficou fora da lista de recuo tarifário dos Estados Unidos e segue sujeito a uma sobretaxa que pode chegar a 40%, além da tarifa mínima de 10% já aplicada.
O problema é estrutural. 76% das exportações brasileiras de mel tiveram como destino os EUA nos últimos cinco anos. O mercado interno não absorve o excedente: o consumo per capita no Brasil é de 90 a 100 gramas por ano, contra 1,5 kg nos EUA.
Santa Catarina é o 3º maior exportador de mel do país, com mais de 5,4 mil toneladas exportadas e US$ 14 milhões em receita, além de cerca de 13 mil apicultores e 358 mil colmeias espalhadas pelo Estado.
O deputado estadual Altair Silva usou sua rede social para ir direto ao alerta:
“Defender o mel catarinense é defender trabalho, renda e justiça para quem produz. Sem mercado lá fora, o prejuízo cai todo no colo do produtor.”
Nem mesmo a qualidade reconhecida internacionalmente — mel orgânico, premiado e rastreável — garante proteção quando o preço vira arma comercial.
Sem café e mel, mas com conta para pagar
O agro começa 2026 sem café e mel, sem alívio nos juros e com regras cada vez mais rígidas.
Crédito caro, renegociação perigosa, frete fiscalizado por sistema e mercados externos fechando portas.
Produzir continua sendo essencial. Sobreviver financeiramente, virou o verdadeiro desafio.
A Política e Agro segue acompanhando — porque, neste ano, a planilha pesa tanto quanto a lavoura.





