Júlia Opuski escreve artigo sobre a baixa representatividade feminina na política brasileira, destacando os desafios enfrentados pelas mulheres para consolidar sua participação nas cargas públicas e propondo medidas para fortalecer suas trajetórias políticas.
As eleições municipais de 2024 evidenciaram um paradoxo que precisa ser urgentemente enfrentado: embora as mulheres estejam cada vez mais qualificadas e presentes nos pleitos – com o mínimo de 30% de candidaturas de gênero na nominata, o que impulsiona a participação feminina – ainda há muito a ser feito para consolidar a participação das mulheres nos espaços de poder. Mesmo com 34% das candidaturas sendo femininas, apenas 13% das prefeituras e 18% das cadeiras legislativas municipais foram ocupadas por mulheres. Portanto, ainda longe dos 51,5% que representamos na população do país.
Dados da União Interparlamentar (IPU) – organização internacional que mede a participação feminina em parlamentos de mais de 180 países – indicam que 73% dos políticos no mundo são homens. Apesar de a baixa representatividade feminina na esfera pública ser um problema global, a situação do Brasil parece crítica. O país ocupa a 134ª posição no ranking de igualdade de gênero da IPU, o que representa o pior panorama da América Latina.
Pesquisas desenvolvidas em diferentes universidades têm mostrado que as características do sistema eleitoral e a dinâmica de partidos constituem barreiras à ascensão feminina na administração pública brasileira. Diante desse panorama, a cientista política brasileira Malu Gatto, da University College London (UCL), no Reino Unido, acaba de publicar o livro Candidatas – Os primeiros passos das mulheres na política no Brasil (FGV Editora, 2024), em que identifica perfis e motivações que levam as mulheres a pleitearem cargos públicos.
Muitas dessas mulheres são líderes comunitárias que veem na política uma oportunidade de representar e defender os interesses de seus grupos, como organizações de proteção animal ou associações LGBTQIAPN+. Outras se lançam na disputa motivadas pelo desejo de ampliar a representatividade feminina nos espaços de poder, promovendo a igualdade de gênero e inspirando outras mulheres a seguirem o mesmo caminho. Há, ainda, aquelas que são convidadas por partidos, frequentemente por já possuírem envolvimento com a política institucional ou conexões com figuras influentes.
Entretanto, muitas mulheres que se dispõem a concorrer enfrentam dificuldades para continuar participando ativamente da construção política após o pleito. Essa realidade levanta um desafio para os partidos políticos: como transformar a participação feminina nas urnas em uma presença efetiva e influente nos espaços de poder?
É imperativo que os partidos políticos parem de buscar mulheres apenas a cada quatro anos para cumprir as cotas de gênero, e passem a investir em suas candidatas de forma contínua, visando aumentar a presença feminina de forma qualitativa.
É necessário criar mecanismos para que as mulheres possam consolidar suas trajetórias políticas, ampliando suas chances de sucesso em futuras eleições. Isso inclui oferecer capacitação, apoio financeiro e espaço para que as mulheres participem ativamente de projetos de governos e da construção de políticas públicas.
O cenário de pouca participação efetiva da mulher na política é agravado pelo desperdício de talentos. Muitas das mulheres que se candidatam – profissionais altamente capacitadas, com formação acadêmica sólida e ampla qualificação – se veem excluídas de decisões estratégicas, sem chances de contribuir para a gestão governamental ou para o fortalecimento do capital político – próprio e coletivo.
A vice-governadora de Santa Catarina, Marilisa Boehm, também nesta coluna, reforçou a necessidade de engajamento coletivo: “É necessário que a sociedade civil organizada, o Congresso Nacional, a Justiça, o governo e demais instituições reforcem de modo efetivo o incentivo às mulheres de todo o Brasil para que elas possam, efetivamente, fazer política”.
Apesar de tantos desafios, conforme apontado por Gatto, a maioria das mulheres que participam do pleito expressam o desejo de permanecerem ativas na política, seja concorrendo em futuras eleições, apoiando outros candidatos ou atuando em movimentos sociais. “Embora tenham manifestado dificuldades com as dinâmicas partidárias, as participantes, em sua maioria, revelaram um compromisso renovado com a política”, destaca a cientista política.
É fato incontestável que muitas de nós escolheram a política por decisão própria, por vocação e/ou por habilidades em diversos âmbitos, tais como liderança, comunicação, gestão, relacionamento com pessoas, processo legislativo etc., e o mais importante: por vontade de ajudar a construir uma sociedade cidadã, equânime e conectada com as aspirações contemporâneas de todos.
O sucesso feminino na política não ameaça o protagonismo masculino; ao contrário, fortalece a democracia. Homens e mulheres não estão competindo, mas caminhando juntos em direção a uma sociedade mais justa e inclusiva, em que o fazer político deve demonstrar a sua efetividade para atender as demandas de todos os grupos sociais.
Eis que os partidos políticos têm em mãos a oportunidade histórica de reverter o ciclo de invisibilidade feminina nos espaços de poder, apostando em lideranças colaborativas e construindo bases eleitorais mais sólidas e representativas, que tragam ainda mais força para a disputa das cadeiras no legislativo.
Como ressaltou a desembargadora Maria do Rocio Luz Santa Ritta, Presidente do TRE-SC: “devemos reafirmar o compromisso de motivar mulheres ao exercício da prática política, a ocuparem seus espaços no Executivo e no Legislativo municipal.”
Deve-se considerar, pois, que investir na participação política das mulheres não é apenas uma questão de justiça, mas de inteligência estratégica. Ao transformar candidatas em lideranças efetivas, os partidos políticos fortalecerão a sua posição no intrincado jogo eleitoral. A política, afinal, é uma construção coletiva, e quando homens e mulheres caminham lado a lado, toda a sociedade avança.
Júlia Opuski foi candidata a vereadora em Florianópolis pelo MDB