Após um mês de férias, observando o cenário com distanciamento, uma constatação se impõe: em Santa Catarina, quase ninguém quer arriscar fechar uma aliança agora e descobrir que ficou do lado errado do jogo da sucessão presidencial. O tabuleiro nacional está se movendo e, diferente de 2022, as peças não se organizam apenas em dois polos, mas em três. E isso afeta os Estados.

O cenário que se desenha em Brasília apresenta a candidatura de esquerda com a tentativa de reeleição do presidente Lula (PT) e a candidatura de direita, agora protagonizada por Flávio Bolsonaro (PL) como substituto do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso. Na agenda de ambos está a ideia de repetir a polarização cara e coroa, em que a vitória depende não apenas da aprovação de um, mas também da rejeição ao outro.
A terceira via, desta vez, não é apenas um fracassado “nem um, nem outro” que Simone Tebet e Ciro Gomes tentaram encarnar na disputa passada. A alternativa, agora, é desenhada no campo da política – uma tentativa de despolarizar o cenário pelo pragmatismo e pela gestão, apostando no cansaço do eleitor com o conflito permanente. Quem veste o figurino, com a bênção de Gilberto Kassab (PSD), é o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD).
Em Santa Catarina, o jogo começa a espelhar essa tripla oferta.
Jorginho aposta na identidade bolsonarista
O governador Jorginho Mello (PL) fez seus movimentos recentes para garantir o “bolsonarismo raiz” em seu palanque. O movimento mais notável nesse sentido é a reaproximação com a deputada federal Caroline de Toni (PL), que estava com um pé no Novo para garantir a candidatura ao Senado após se sentir “rifada” pelo PL com a chegada de Carlos Bolsonaro para concorrer ao cargo por Santa Catarina e a disposição inicial do governador de ofertar a segunda vaga de senador na chapa para composição com a federação de União Brasil e Progressistas, que tem Esperidião Amin (PP) como pré-candidato à reeleição.
O cenário nacional com Flávio Bolsonaro presidenciável, a liderança de Caroline de Toni nas pesquisas e as recentes conversas mutuamente atravessadas entre o governador e a federação levaram a um recálculo de rota. Jorginho voltou a ter a deputada federal do PL como alternativa principal. Com Carlos Bolsonaro e Caroline de Toni, ambos pelo PL, Jorginho sinaliza uma chapa “puro-sangue”.
É uma aposta na identidade: Jorginho quer ser o representante único da direita bolsonarista, mesmo que para isso tenha que sacrificar alianças. Nesse cenário, caberia apenas o MDB na majoritária, como vice. Até isso, no entanto, pode ser sacrificado em nome da presença do partido no governo Lula.
João Rodrigues gruda em Ratinho Junior e na política
Esse movimento de Jorginho gera uma reação em cadeia que pode dar fôlego à pré-candidatura do prefeito chapecoense João Rodrigues (PSD) ao governo. Se conseguir amealhar o apoio da federação União Progressista, trazendo Amin para a chapa, o pessedista começa a replicar o modelo Ratinho Junior: conservador nos costumes, mas focado na entrega e na composição política tradicional, fugindo da radicalização estética do bolsonarismo.
A réplica do cenário nacional que se desenha em Santa Catarina ainda precisa da candidatura que vai liderar o bloco da esquerda, o palanque estadual do presidente Lula. O nome óbvio é Décio Lima (PT), segundo colocado na disputa de 2022, que poderia disputar o cargo pela terceira vez consecutiva. Os sinais, no entanto, são de que o petista prefere a fragmentada disputa por uma das duas cadeiras ao Senado.
No laboratório das estratégias eleitorais, são pensados nomes do PT, de aliados e até mesmo antigos adversários que se filiariam ao PSB de Geraldo Alckmin. Há ganhos e perdas em todas as equações e uma certeza: um piso de 15% e um teto de 30% dos votos dos catarinenses estão disponíveis para o candidato que apoiar a reeleição do petista.






