Eduardo Leite transformou em views a vaia da claque de Lula que Jorginho Mello preferiu evitar

Nas duas vezes em que o presidente Lula (PT) veio a Santa Catarina neste mandato, na inauguração do Contorno Viário da Grande Florianópolis e no anúncio de investimentos no Porto de Itajaí, o governador Jorginho Mello (PL) foi bastante cobrado por ignorar o convite para participar dos eventos. A questão institucional deveria estar acima das preferências políticas e do medo de que uma foto com o líder petista causasse constrangimento junto ao eleitorado fiel ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), seu grande fiador político.

Reação de Eduardo Leite às vagas em evento do governo federal no RS ganhou destaque nacional. Foto: Mauricio Tonetto, Secom-RS.
Reação de Eduardo Leite às vaias em evento do governo federal no RS ganhou destaque nacional. Foto: Mauricio Tonetto, Secom-RS.

Na terça-feira, o governador gaúcho Eduardo Leite (PSD) experimentou as vaias que certamente teriam sido ouvidas por Jorginho caso tivesse subido ao palanque de Lula. O pessedista aceitou o convite institucional para participar do lançamento do programa Mar Aberto, que prevê investimentos de R$ 2,8 bilhões na indústria naval. Ao contrário do governador catarinense, no entanto, Eduardo Leite transformou as vaias em ativo político ao decidir enfrentar a claque petista no palanque.

Antes de desenvolver a argumentação, aponto duas questões importante. Primeiro, não é uma comparação direta entre Jorginho e Eduardo Leite. O gaúcho almeja concorrer à presidência da República e não é, hoje, nem o preferido em seu partido para o posto. Precisa dessa visibilidade, enquanto o governador catarinense viveria apenas uma tarde desagradável. Não ir é o gesto mais forte.

O segundo ponto, que é crucial para mim, é a cobrança sobre o papel institucional dos governantes nesses atos. Desde que acompanho visitas presidenciais ao Estado, o modelo costuma ser o mesmo: uma claque de militantes, selecionada entre aqueles mais fiéis, é posicionada em frente ao palco. É um verdadeiro comício – e Lula, no caso específico, tem feito discurso de comício. No Rio Grande do Sul, por exemplo, disse que 2026 será o ano da comparação entre o seu mandato e os de Jair Bolsonaro e Michel Temer (MDB). Quem cobra institucionalidade precisa entregar, também, institucionalidade.

Eduardo Leite reagiu à vaia da claque de Lula

Voltando a Eduardo Leite, no entanto, as vaias da claque petista e a forma como ele reagiu a elas fez com que sua voz estourasse pela primeira vez a bolha da política gaúcha ou daqueles que acompanham sua carreira política. A mensagem que o gaúcho tem tentado emplacar a meses, sobre a necessidade de “despolarizar” a disputa presidencial chegou mais longe. Se foi bem ou mal recebida, é outra história. As vaias fizeram Eduardo Leite ser ouvido.

Ao enfrentar as vaias previsíveis não com silêncio ou submissão, mas com uma reprimenda moral transmitida ao vivo, Leite transformou uma tentativa de humilhação pública em um ativo político valioso. O governador gaúcho pegou o microfone e devolveu civilidade à barbárie, com uma dose de ironia:

– Esse é o amor que venceu o medo? – disparou, lembrando um dos motes da campanha lulista.

A imagem que rodou o país não foi a de um governador acuado, mas a de um líder de centro que, mantendo a postura republicana e institucional de anfitrião, colocou a militância sectária em seu devido lugar. Falou aquilo que boa parte da esquerda parece querer esquecer: Lula venceu Bolsonaro por um diferença mínima de votos e pouco avançou na busca de curar as feridas de um Brasil partido ao meio.

– O que faz essa postura de vocês é incendiar na outra metade ainda mais ódio, rancor e mágoa – disse Leite, enfatizando na sequência ao repetir três vezes a frase “e nós não queremos isso”.

Há vaias e vaias. Existem formas e formas de reagir a elas. Eduardo Leite transformou em views a vaia da claque de Lula que Jorginho Mello preferiu evitar. Estilos e estratégias diferentes.

Ouça a fala completa de Eduardo Leite em vídeo publicado pelo UOL

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