Os fatos recentes que chocaram a sociedade catarinense não podem ser tratados como episódios isolados. Eles escancaram uma sequência de falhas que envolvem comportamento social, educação familiar, omissão do Estado e a forma como lidamos com responsabilidade coletiva.

O primeiro ponto é a naturalização dos chamados “cães comunitários” ou “cães sociais”. Animal não pode ser de todos e, ao mesmo tempo, de ninguém. Todo cão precisa ter tutor, identificação, acompanhamento veterinário, alimentação adequada e controle.
Quando a responsabilidade é diluída no coletivo, ela simplesmente deixa de existir. Ninguém responde. Ninguém cuida integralmente. E o risco cresce. No episódio trágico que abalou a comunidade, não havia um responsável direto pelo animal. Isso não é detalhe. É parte do centro do problema.
Também é preciso falar sobre os adolescentes envolvidos. Jovens de 15 ou 16 anos já compreendem, sim, a diferença entre certo e errado. Isso não significa defender punições desproporcionais ou estigmatização. Significa reconhecer que atos têm consequências.
Responsabilizar é educar. O erro precisa ser tratado como oportunidade de aprendizado, não como licença para repetir comportamentos inadequados. A sociedade precisa ajudar esses jovens a se tornarem adultos conscientes. Isso passa por limites claros.
Nesse contexto, o comportamento de alguns pais também merece reflexão.Em vez de assumirem os erros dos filhos, pedirem desculpas públicas e reafirmarem o compromisso com a correção, optaram pelo confronto, pelo discurso do poder e da influência.
Faltou maturidade. Faltou exemplo. Faltou humildade. Educar é, antes de tudo, assumir responsabilidades, inclusive quando dói.
Outro elo frágil dessa cadeia é o poder público. A omissão é evidente. Animais soltos, ausência de fiscalização, inexistência de políticas eficazes de controle e proteção.
Hoje é um cão. Amanhã pode ser um animal de grande porte. Depois, qualquer outro risco urbano tolerado pela negligência. Quando acontece uma tragédia, quem paga é o contribuinte. Porque o município permitiu o ilegal. Porque não fiscalizou. Porque também se omitiu.
Governar também é prevenir. E omissão, nesse caso, é forma de responsabilidade.
Por fim, é preciso falar sobre o ambiente das redes sociais. A sociedade reage bem quando cobra. Mas reage mal quando ameaça. A crítica é legítima. A cobrança é necessária. Já a intimidação, o ataque pessoal e as ofensas apenas revelam infantilização coletiva.
Não produzem justiça. Não repararam danos. Não constroem soluções. O episódio recente mostra que não faltam leis. Falta compromisso. Falta senso de dever. Falta coragem para admitir erros e corrigir rumos.
Entre cães, adolescentes, pais e poder público, o problema é o mesmo: irresponsabilidade. E sem responsabilidade, nenhuma sociedade se sustenta.







