Artigo de Léo Mauro Xavier Filho, empresário

Há momentos em que o debate público precisa abandonar o terreno das intenções e pousar, com firmeza, na realidade. O sistema de transporte coletivo vive exatamente esse ponto de inflexão. Todos sabem que a licitação é necessária, desejável e inevitável. Ela é o destino. Mas entre o agora e esse futuro existe um presente que não pode ser ignorado.
A vida não entra em suspensão enquanto os processos administrativos amadurecem. As pessoas continuam saindo de casa cedo, enfrentando longos deslocamentos, dependendo do ônibus para trabalhar, estudar, cuidar da saúde. O transporte coletivo não é um conceito abstrato. É um serviço essencial que pulsa todos os dias, com ou sem edital publicado.
Por isso, insistir na licitação como resposta única é um equívoco perigoso. Não porque ela seja desnecessária, mas porque ela não resolve o hoje. Até que esse processo complexo se conclua, medidas emergenciais, transitórias e responsáveis precisam ser adotadas. Não como concessão política, mas como dever público.
A urgência não está em escolher um modelo definitivo, mas em evitar o colapso do sistema. Manter a frota operando, garantir previsibilidade mínima, assegurar equilíbrio operacional e segurança jurídica no momento presente não é privilégio de operadores. É proteção ao usuário. Quando o sistema entra em instabilidade, quem paga a conta não é o contrato, é o cidadão.
Há uma falsa dicotomia instalada no debate: ou se faz licitação ou se tolera o improviso. Essa lógica empobrece a discussão. O caminho maduro é outro. Reconhecer que existe um período de transição que precisa ser governado com inteligência, técnica e responsabilidade. Transição exige decisão, pois medidas, mesmo que provisórias, bem desenhadas não enfraquecem a futura licitação. Ao contrário, a fortalecem. Um sistema minimamente organizado, financeiramente previsível e operacionalmente funcional cria melhores condições para um certame competitivo, transparente e atrativo. Licitações feitas sobre ruínas raramente produzem bons resultados.
O tempo não espera consensos perfeitos. Cada mês perdido cobra seu preço em qualidade, confiança e credibilidade institucional. Governar também é saber agir enquanto o futuro se constrói. E, nesse intervalo, coragem e pragmatismo valem mais do que discursos bem intencionados.
A licitação virá. Mas até lá, é preciso cuidar do caminho. Porque mobilidade não admite pausa. E cidade que não se move, adoece.






