
Eu preciso começar esse texto com uma confissão: desde a pandemia, aumentei muito meu consumo de álcool. Muito. Se eu for bem sincera, direi que os dias em que bebi vinho superaram os dias em que não bebi nada nos últimos cinco anos.
Por quê? Porque o caos da pandemia foi um gatilho – e não estou sozinha nessa. Que atire a primeira rolha quem não passou do ponto em alguma coisa naquele período insano de isolamento e pânico. De lá pra cá, criei o hábito de beber em casa no fim do dia. Duas ou três taças de vinho, só pelo prazer de marcar a transição do trabalho para o descanso. Além disso, comecei a estudar vinhos com mais profundidade, fiz curso de sommelier e degustar virou também parte do ofício.
Agora, no fim de 2025, pela primeira vez em cinco anos, diminui drasticamente o consumo de álcool. Cerca de 90%. Não foi uma decisão pensada ou um voto de virtude, e sim parte de um tratamento médico para melhorar minha dermatite atópica. E, embora a questão não tenha nada a ver com fígado (meus exames seguem perfeitos, obrigada), esse tempo de pausa me fez pensar. E observar.
Quando o hábito vira piloto automático
Uma coisa ficou clara: eu estava bebendo por hábito, mais do que por vontade. Beber vinho no fim do dia virou quase automático. Como quem liga a cafeteira de manhã sem nem pensar. E isso, por si só, já é um bom motivo pra desacelerar.
Se o vinho deixou de marcar um momento especial e passou a fazer parte da mobília da rotina… talvez valha a pena olhar pra isso.
É detox mesmo, ou só um respiro entre excessos?
Nos últimos tempos, ficou cada vez mais comum ver pessoas decretando um mês de pausa no álcool. Tem gente que faz isso na quaresma, outros entram na onda do “Janeiro Seco” para dar um tempo depois das festas. Conheço muita gente querida que faz isso, e com ótimos motivos.
Talvez essas pausas sejam mesmo um jeito gentil de o corpo pedir um intervalo. Um respiro depois da farra de fim de ano e antes do ritmo acelerado que costuma vir com o carnaval, uma forma de reequilibrar. E tudo bem.
Mas, pra mim, o ponto mais interessante não é o mês sem álcool em si. É o que a gente aprende (ou não) nesse intervalo. Se o que buscamos é moderação, talvez valha mais pensar em constância do que em interrupções pontuais. E olhar com mais atenção pro que acontece nos outros 11 meses do ano.
E o que é beber “com moderação”?
Vamos ser sinceros e assumir que a gente acha que “bebe socialmente”. Mas o que isso quer dizer, exatamente?
A organização Wine in Moderation, com base em orientações da OMS, recomenda um consumo máximo de:
- 2 unidades de álcool por dia para mulheres
- 3 unidades por dia para homens
Traduzindo: uma taça de 100 ml de vinho = 1 unidade. Ou seja, para as mulheres, a medida de “moderação” diária segura é de até 200 ml. Para os homens, 300 ml. A garrafa compartilhada num jantar de terça-feira já passa dessa cota.
E se isso te parece pouco, é porque provavelmente estamos todos um pouco confusos sobre o que é realmente beber pouco. Ou talvez só estejamos mentindo pro médico (e pra gente mesmo).
Nem tudo aparece no exame de sangue
Apesar de não ter nenhum sinal de alerta clínico, existe um outro tipo de dado que não sai nos exames: como o álcool influencia na manutenção do corpo que queremos carregar pelos próximos 40, 50 anos. No meu caso, por exemplo, manter massa muscular com consistência sempre foi um objetivo. E o álcool em excesso, a longo prazo, atrapalha isso. Sutilmente, silenciosamente, mas atrapalha.
E se vamos viver até os 90, é bom começar a pensar nisso agora. Mesmo sem alarde.
Um brinde à beleza de beber (com intenção)
Não entrei pro clube do suco de uva nem comecei a pregar abstinência gourmet. Só reduzi o consumo por um tempo, percebi algumas coisas e resolvi escrever. Cada um que faça seu próprio brinde com o que achar melhor (e o mesmo com esse texto).
Porque, sejamos honestos: o vinho ainda é uma das formas mais bonitas que a gente tem de estar junto. Ele estimula a convivência, a troca de ideias, as conversas francas (e às vezes francamente embaraçosas). E, como escreveu Baudelaire, “há uma vasta multidão sem nome cujo sono não basta para adormecer os sofrimentos. O vinho torna-se para eles, como cantos e poemas”.
Pode não resolver a vida, mas ajuda a atravessá-la com mais sabor.
Tim tim!
Beatriz Cavenaghi é jornalista, doutora em Gestão do Conhecimento pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e sommelière pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS-SC). @beacavenaghi no Instagram





