A sexta-feira chega com o agro olhando para o céu e para Brasília.

A confirmação da permanência do La Niña até fevereiro de 2026 coloca o clima definitivamente na rota das decisões do campo. Ao mesmo tempo em que há expectativa de boas condições para parte das lavouras, cresce a cautela com extremos climáticos, custos e margens apertadas.
Entre tecnologia que tenta driblar a seca, negociações internacionais que avançam aos trancos e barrancos e uma cadeia do arroz dividida entre reconhecimento institucional e dificuldades reais, o setor fecha a semana atento, produtivo e longe de qualquer zona de conforto.
La Niña confirmado até fevereiro e entra de vez na conta do agro
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou a probabilidade de 55% de um La Niña fraco até fevereiro de 2026, com transição para condições neutras no primeiro trimestre do ano. O fenômeno, caracterizado pelo resfriamento das águas do Pacífico, costuma alterar o regime de chuvas no Brasil – mas, desta vez, traz mais incerteza do que previsibilidade.
Segundo Willians Bini, meteorologista e chefe de novos negócios da Metos Brasil, o fato de o La Niña ser curto e fraco pode impedir que os padrões clássicos se consolidem. “A atmosfera pode não ter tempo suficiente para se ajustar, o que impede a ocorrência dos efeitos tradicionais”, avalia.
No Sul, especialmente no Rio Grande do Sul e no Oeste de Santa Catarina, o risco é de menos chuva ao longo do ciclo. Já no Centro-Oeste e no Sudeste, onde se esperava normalidade, projeções mais recentes indicam possíveis déficits hídricos.
Mesmo assim, a Conab mantém projeções otimistas: a safra 2025/26 pode chegar a 355 milhões de toneladas, sendo 178 milhões de toneladas de soja e 139 milhões de toneladas de milho. O consenso entre especialistas é claro: o desafio não é saber se o La Niña vem, mas como e onde ele vai pesar.
Capim indoor entra em cena para driblar a seca na pecuária
Se o clima faz graça, a tecnologia responde. A forragem hidropônica (FVH), conhecida como capim indoor, começa a ganhar espaço como alternativa para enfrentar períodos de seca na pecuária.
O sistema permite produzir até 100 toneladas de matéria verde por hectare ao dia, com cultivo vertical, indoor e ciclo de apenas 10 dias, transformando grãos como milho, aveia, cevada e trigo em biomassa altamente digestível.
Entre os atrativos estão:
- redução de até 99% no consumo de água;
- diminuição de custos operacionais em até 50%;
- menor dependência de diesel, máquinas e clima;
- retorno do investimento em até 24 meses.
A FVH não substitui o pasto tradicional, mas funciona como boia de salvação em secas severas, trazendo previsibilidade e estabilidade para a pecuária.
Europa faz concessões para destravar acordo Mercosul–UE
No tabuleiro internacional, a União Europeia decidiu ceder para tentar destravar o acordo com o Mercosul. O bloco anunciou mais de € 45 bilhões em apoio ao setor agrícola, redução de tarifas de importação para fertilizantes como ureia e amônia e abriu discussão para flexibilizar temporariamente o imposto de fronteira de carbono (CBAM).
A estratégia busca reduzir a resistência interna de países com forte base agrícola, como França, Itália, Polônia e Hungria, em meio a protestos de agricultores.
O comissário europeu de Comércio, Maros Šefčovič, afirmou que o acordo pode elevar em até 50% as exportações agroalimentares da UE, classificando o pacto como “o maior acordo de livre comércio já negociado pelo bloco”.
Itália vira peça-chave e sinaliza avanço
A Itália segue como fiel da balança. Nesta quarta-feira, o ministro da Agricultura italiano, Francesco Lollobrigida, afirmou que o país está pronto para assinar o acordo, desde que sejam garantidas salvaguardas ao setor rural.
Se Roma se alinhar a Alemanha e Espanha, a resistência liderada por França e Polônia perde força para formar uma minoria de bloqueio. A expectativa é de que, com sinal verde dos embaixadores europeus, a assinatura possa ocorrer ainda em janeiro, no Paraguai.
Do lado brasileiro, o vice-presidente Geraldo Alckmin reforçou o otimismo. Para ele, o acordo é estratégico em um mundo mais protecionista e ajuda a reduzir a dependência da China, ampliando o acesso a mercados e minerais críticos.
Mirim Doce vira Capital Nacional do Melhor Arroz
No campo simbólico, Santa Catarina ganhou destaque. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou na quarta-feira, dia 7, a Lei nº 15.323/26 reminder que reconhece Mirim Doce, no Alto Vale do Itajaí, como Capital Nacional do Melhor Arroz.
A lei é fruto do PL 3037/23, de autoria do deputado Jorge Goetten (Republicanos-SC). O município, com cerca de 2,8 mil habitantes, tem no arroz uma de suas principais atividades econômicas, baseada em gestão sustentável da água, uso intensivo de tecnologia e elevada produtividade.
Mas a cadeia do arroz segue pressionada em 2026
O reconhecimento vem em meio a um cenário duro. Segundo o Sindicato das Indústrias do Arroz de Santa Catarina (SindArroz-SC), a crise enfrentada em 2025 deve se estender ao longo de 2026.
De acordo com o presidente da entidade, Walmir Rampinelli, o excesso de estoques continua limitando qualquer reação de preços no curto prazo. “O alto volume de arroz disponível impede valorização. Isso exige atuação cautelosa das indústrias, com foco em redução de custos e gestão eficiente”, afirma.
A expectativa de melhora só aparece no último trimestre de 2026, impulsionada pela previsão de menor plantio para a safra 26/27, reflexo da descapitalização dos produtores. Menos área pode significar menos oferta — e algum reequilíbrio.
Dados da Epagri/Cepa indicam:
- redução de 1,28% na área plantada;
- queda de 6,11% na produção, o equivalente a 79,3 mil toneladas a menos.
Mesmo assim, a safra 25/26 se desenvolve dentro da normalidade agronômica, com expectativa de colheita estável.
Sexta-feira de sol cauteloso
O agro fecha a semana com o clima no radar, a tecnologia como aliada e o mercado exigindo paciência. La Niña traz incerteza, o Mercosul avança com ressalvas e o arroz mostra que título não paga conta — mas ajuda a manter a identidade e a esperança.
Sexta-feira pede fé no tempo, olho no custo e estratégia afiada. A Política & Agro segue acompanhando — porque, no campo, até quando o clima ajuda, a conta continua sendo diária.





