Os movimentos políticos desta semana em Santa Catarina indicam que o governador Jorginho Mello (PL) está promovendo uma reconfiguração profunda de sua chapa majoritária. Com uma única jogada, pode estar afastando dois grupos históricos da política catarinense: o MDB e a antiga Arena, hoje representada pela família Amin.

A ironia é evidente. Jorginho Mello iniciou sua carreira política em 1976, eleito vereador em Herval do Oeste pela Arena, e chegou ao Senado em 2018 com forte apoio do MDB. Agora, tudo indica que pode dispensar justamente esses dois pilares de sua trajetória eleitoral.
O governador teria convidado o prefeito de Joinville, Adriano Silva (Novo) — que, segundo bastidores bem informados, já teria aceitado — para compor a chapa como vice. Ao mesmo tempo, articula para que a deputada federal Carol de Toni (PL) não deixe o partido e dispute o Senado em dobradinha com Carlos Bolsonaro (PL).
Os números que a dupla de Toni e Carluxo atinge nas pesquisas fazem o governador trabalhar com a possibilidade chapa pura ao Senado.
Se confirmado, o movimento elimina duas possibilidades que até pouco tempo pareciam dadas como certas: a indicação do vice pelo MDB, promessa reiterada por Jorginho Mello, e a candidatura do senador Esperidião Amin (Federação União Progressista) a uma das vagas ao Senado.
Até agora, líderes do MDB e dos Progressistas, partidos que podem estar sendo rifados, evitam manifestações públicas. Quem observa com atenção é o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), pré-candidato ao governo e principal nome da oposição, à espera de possíveis fissuras na base governista.
A volta que a história deu
MDB e Progressistas integram hoje a base aliada de Jorginho Mello, ocupam cargos no governo e garantem sustentação política na Alesc. Ambos vinham trabalhando internamente para estar na chapa majoritária: o MDB indicando o deputado federal Carlos Chiodini para vice, e o Progressistas defendendo o nome de Esperidião Amin para o Senado.
O contraste com 2022 é marcante. Naquele ano, Jorginho Mello, então senador, buscou esses mesmos partidos para viabilizar sua candidatura ao governo. As conversas não avançaram e ele acabou formando uma chapa pura, com Marilisa Boehm como vice, numa tentativa de contemplar mulheres e a região Norte.
O MDB vivia uma disputa interna confusa, envolvendo Dario Berger, Celso Maldaner e Antídio Lunelli. A prévia nunca ocorreu, desistências se sucederam, e Lunelli acabou derrotado na convenção pelo grupo que optou pela aliança com o então governador Carlos Moisés, tendo Udo Döhler como vice.
Já o Progressistas apostou em Esperidião Amin como candidato ao governo, em coligação com o PSDB. O resultado foi um quinto lugar, com menos de 10% dos votos.
Há ainda um episódio simbólico que Jorginho Mello não esquece. Em plena pré-campanha, foi recebido por Amin na residência do senado, no Bom Abrigo. Rezaram juntos numa capela histórica e posaram para fotos diante de uma figueira restaurada pelo senador. A reza, porém, não produziu milagre político: Amin saiu candidato contra Jorginho.
Se em 2022 MDB e Progressistas deixaram Jorginho Mello de lado, agora parece ser a vez do governador devolver o gesto — oferecendo, no máximo, espaços administrativos e apoio legislativo.
Uma origem emedebista indireta
Caso o MDB fique fora da chapa, será substituído por alguém com raízes — ainda que distantes — no próprio partido. Adriano Silva, prefeito de Joinville, filiou-se ao Novo apenas em 2018. Antes disso, era empresário e bombeiro voluntário. Estreou na política em 2020, vencendo Darci de Matos (PSD) no segundo turno, e foi reeleito em 2024 já no primeiro turno.
Sua história familiar, porém, passa pelo MDB. É filho do empresário Ney Silva, antigo aliado do ex-governador Luiz Henrique da Silveira, e sobrinho de Sergio Silva, ex-vereador e ex-deputado estadual emedebista em Joinville.
Cenário aberto
Analistas e políticos experientes avaliam que o jogo sucessório segue em aberto. As movimentações do governador, as reações ainda silenciosas dos aliados e a articulação da oposição — que pode incluir uma aliança entre Gelson Merísio e o PT — indicam que até o prazo final das convenções, em 5 de agosto, muita água ainda vai passar por baixo da ponte.
Nada está definitivamente decidido. Mas, se os sinais atuais se confirmarem, Jorginho Mello pode estar redesenhando o tabuleiro político catarinense com uma só foiçada.






