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19 de abril de 2024

Lula e Netanyahu: a sinuosa via do carisma

Weber elabora três tipos de dominação ao observar historicamente o exercício objetivo do poder nas formas de dominação tradicional, carismática e racional-legal. Esta última coincide com a nossa época moderna, legitimando-se por força da Lei (abstrata, geral, impessoal). Weber adverte que na dominação racional-legal: a) coexistem e se misturam os outros dois tipos de dominação e!, b) em momentos de crise nos quais as estruturas burocráticas não logram atender às demandas por reconhecimentos ou efetividade de direitos, o líder carismático (um juíz ou um procurador, um fical ou delegado) podem sim ter um papel positivo como pressão ocasional na redefinição dos processos de racionalização geral e do direito. A história das escolas hermenêutica confirmam essa tendência, inclusive no Brasil com o MDA, Movimento Direito Alternativo.

Dependendo da formação social (central, periférica, semi-periférica) as esferas sociais modernas (jurídica, política, econômica, cultural, religiosa, afetivo-sexual) não raramente apresentam as três dominaçôes em ocorrências distintas e não nessariamente no mesmo grau de complexidade ou ou no mesmo nível de racionalização.

Em países tardios o populismo pode ser de direita ou de esquerda, progressista ou ultraconservador. No caso do Brasil a racionalidade política e a racionalidade jurídica são formalmente modernas. Mas na prática são atravessadas por más tradições legadas dos tempos coloniais e pela emergência de líderes com dotes excepcionais hábeis para impor certas decisões (nas esferas públicas e privadas) – de cima para baixo ou de baixo para cima, legitimadas não necessariamente nas leis ou só na Lei, mas nas suas vontades, percepções e caprichos pessoais do líder. Voluntarismo de ideologias muitas, podem revelar avanço ou retrocesso nas lutas democráticas.

O século XX é rico em exemplos díspares de homens carismáticos. Exageranfo a la Weber nos tipos-ideais pidem ser cinsiderados carismáticos figuras tão diferentes como Hitler e Stálin, Gandhi e Khomeini. O dote carismático não é reprovável em si mesmo, pois constitui em grande medida parte importante da política e das ações sociais em geral, hoje um tanto deturpada por força da indústria da desinformação.

Árdua questão o populismo emergente no século XXI como iniciativa ou recurso na política compatível com a ordem legal. Um problema maior em tempos de múltiplas falências institucionais exdas fake news..
Lula pode pensar que o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu é de extrema direita. E o pensamento procede. Mas erra ao expressar publicamente esse juízo sobre um chefe de Estado. Afinal Lula vem buscando tornar-se uma espécie de moderador/mediador internacional desde o conflito na Ucrânia.

Lula por vezes parece marionete de Celso Amorim quando emite juízos sobre política externa. Toda política apresenta lá seus cálculos de perdas e ganhos. Isso é possível e bem provável, além de necessário.

O Brasil tem se inclinado para o lado dos que constroem outra hegemonia mundial diante da decadência norte-americana e aliados mais próximos, caso de Israel e oaíses europeus. Mas a polarização entre gigantes é sempre uma incógnita para seus satélites. No caso do Brasil é evidente a complexidade dos interesses com os dois grandes blocos. Ademais a guerra sempre planta casamatas ideológicas e perigosas minas em vários territórios (ocupados ou perdidos), complicando a continuidade das lutas geopolíticas regionais.

Todo Imperialismo necessita de novas colônias. Dividir para reinar.
Se Lula quiser mesmo o lugar de moderação para mediação terá que ter mais atenção com o momento indefinido do cenário internacional. E o futuro do Brasil em um mundo no qual interesses nossos encontram-se relacionados tanto ao Ocidente (culturalmente mas também nos negócios) no qual os EUA buscam redefinir suas prioridades, como com a China e aliados. Estes diante de grave crise acirrada (com profundas fissuras e crescentes clivagens) naquela economia, paralisando o crescimento excepcional das últimas duas décadas, podem estar tambem numa corda bamba.

Compreensível o esforço de Lula, aos quase oitenta anos, para deixar na história uma imagem indelével de estadista. Para tal necessita remeter ao esquecimento os tristes episódios da corrupção nos seus governos anteriores que ainda maculam a imagem do PT e das esquerdas. Mas como conciliar o objetivo pessoal de Lula com o que dele se espera como líder carismático acima de interesses partidários nos confusos cenários nacional e internacional?

No plano interno o quadro social não é de estabilidade. A economia ainda patina. As eleições de 2024 darão uma medida das forças sociais. Não se pode correr o risco de retrocesso em 2026. O bolsonarismo veio para ficar. A extrema direita é a nova realidade em um mundo no qual o divórcio entre democracia liberal e mercado capitalista é fato irrecorrível.
Trump tem reais chances de vencer e dificilmente conseguirá conter a profunda crise social em seu país. A Europa no fio da navalha expressa sua fragilidade diante das guerras em curso. A China por sua vez, carrega no seu ventre impasses gigantes um tanto dissimulados na falta de maiores informações.

Amorim, um diplomata experiente está ciente de que Lula não deve jogar-se nos braços de Xi Jinping, algo tão temerário quanto um distanciamento acentuado dos EUA e aliados.

Lula terá que medir as palavras e exigir um pragmatismo mais autêntico nas políticas interna e externa. Um desafio perfeitamente possível diante da capacidade de um líder com carisma indiscutível para positivamente uma ordem internacional cativa de uma ONU inoperante e de uma América Latina em busca de protagonismo real na construção de um novo modelo de desenvolvimento social.

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.

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