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23 de maio de 2024

Madonna tornou Jorge Seif humano, demasiado humano, para quem votou em seu personagem

Live em que tenta mais uma vez justificar ida do show da Madonna mostra o senador Jorge Seif (PL) acossado pela militância que o elegeu

Jorge Seif gosta de música – especialmente de rock. Mas não é um roqueiro radical, também se permite ouvir pop. É o que descobrimos semana passada com a live em que o senador catarinense do PL, visivelmente alterado, tentava mais uma vez, talvez pela última, pedir desculpas aos militantes bolsonaristas por sua presença no show da cantora Madonna.

Destaco isso porque sabemos muito pouco, até hoje, sobre o senador eleito pelos catarinenses com 1,48 milhões de votos, mais do que o dobro alcançado pelos experientes e experimentados Raimundo Colombo (PSD) e Dário Berger (PSDB). Ele surgiu nas lives do então presidente Jair Bolsonaro (PL) até ganhar a condição de ungido do líder da direita nacional para ser senador de um Estado que não o conhecia, mas que confia na indicação do ex-presidente.

Foi eleito prometendo fidelidade a Bolsonaro e ao bolsonarismo. Na história política catarinense, Antonio Carlos Konder Reis marcou época em diversos mandatos entre os anos 1940 e 1990, inclusive de senador. Ele dizia que a fidelidade é um atribuito dos cães, que dos humanos se espera lealdade. O humano Jorge Seif, fora do personagem bolsonarista de fidelidade incondicional ao líder, ainda não havia aparecido.

Sabemos que nasceu no Rio de Janeiro, atua no setor pesqueiro, que veio para Itajaí com a família nos anos 1990. O inconfundível sotaque carioca fazia parecer menos. Lendas sobre parentesco com figuras célebres do Rio de Janeiro circulam, sem confirmação ou negativa. Pouco, muito pouco. Mas o catarinense apostou.

Seif pediu desculpas na tribuna do Senado por ter ido ao show da Madonna. Disse que foi ouvir Like a Virgin e outros sucessos da rainha do pop e que não esperava encontrar um comício esquerdista, com direito a Che Guevara e Marina Silva no telão – sem falar nas ousadias lúbricas típicas de um show da cantora americana.

Talvez para outros políticos, de outras militâncias, fosse suficiente. Para quem jurou fidelidade canina, parece que não. O Seif que foi às redes sociais, nitidamente arrasado com as críticas que vêm recebendo nas redes sociais às milhares, é um ser humano pedindo clemência.

Na live, o humano Seif revelou que quase todas as músicas que ele gosta são de artistas de esquerda, mas jura que isso não muda suas posições políticas e seus votos no Senado contra pautas como aborto e flexibilização do consumo de drogas. Não basta. O personagem ruiu e o humano foi rejeitado.

Este texto não é uma defesa de Seif, até porque ele já mostrou que sabe se defender sozinho. Com articulação política em gabinetes importantes de Brasília, havia conseguido reverter uma expectativa clara de cassação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por abuso de poder econômico nas eleições de 2022 – o julgamento está suspenso para busca de provas.

Um dos principais receios na efetivação da cassação de Seif não era político e nem jurídico, era o medo da reação da base bolsonarista. Esta que hoje chama o senador de “traidor”, entre xingamentos, nas suas redes sociais. Seif se sentiu só e teve medo dessa perigosa solidão.

O conceito de “espírito livre” veio com Nietzsche em “Humano, demasiado humano”. É aquele que pensa diferente do que se espera dele. Gostar de Madonna fez Jorge Seif demasiado humano para os bolsonaristas. Não é apenas uma questão artística.

Parte dessa multidão foi estimulada a acreditar que o show da Madonna não foi apenas a apresentação artística de alguém que pensa diferente, mas um ritual satânico. Quem insufla radicalismo pode acabar tendo a cabeça cortada pelos radicais, aprendemos na Revolução Francesa e também em revoluções entre aspas mais próximas.

Outra parte viu em Seif alguém que não vive o que prega. Na live fatídica, Seif descobriu que não é livre, é instrumento de uma multidão que aceitou votar em um desconhecido em nome de uma causa. Tem tempo, se o TSE permitir, para se redimir com os seus. Mas, certamente, like a virgin nunca mais.


Foto: Jorge Seif na tribuna do Senado.
Crédito: Roque de Sá, Agência Senado.

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