Artigo de Ada de Luca, ex-deputada estadual e ex-secretária estadual de Justiça e Cidadania

A vitória de Wagner Moura no Globo de Ouro como melhor ator em drama e o prêmio de O Agente Secreto como melhor filme em língua não inglesa vão muito além do reconhecimento artístico. São, acima de tudo, um alerta sobre a importância da memória histórica.
Ao receber o prêmio, Wagner resumiu o espírito da obra: “O Agente Secreto é um filme sobre memória, a falta da memória e o trauma geracional.” Depois ao conversar com os jornalistas, foi ainda mais direto ao afirmar que a ditadura militar segue como uma ferida aberta no Brasil. E é exatamente por isso que não podemos parar de falar sobre ela.
Eu, Ada Faraco de Luca, não falo desse período como quem o observa de longe. Sou testemunha viva do terror que foi o regime militar. Em 1964, meu pai, Addo Vânio Faraco, então deputado estadual, foi preso e teve seu mandato cassado pelo golpe. A violência política atravessou nossa família e moldou toda a minha trajetória. Afinal, foi em uma visita ao meu pai na prisão, conheci Walmor De Luca, meu marido, ex deputado federal.
Foi a partir desses episódios que iniciei minha luta pela democracia. Engajei-me no movimento da Anistia, nas Diretas Já e atuei em Brasília ao lado de nomes centrais da redemocratização, como Ulysses Guimarães, de quem fui Chefe de Gabinete. Não se tratava apenas de militância, mas de reconstruir um país ferido pela arbitrariedade.
Por isso, quando Wagner fala em trauma geracional, ele acerta em cheio. Traumas passam de geração em geração, mas valores também precisam passar. E entre eles, o mais essencial é o compromisso inegociável com a democracia.
Vivemos mais um ano eleitoral. Um momento em que o extremismo, venha de onde vier, precisa ser deixado para trás. A história recente do Brasil já demonstrou que regimes autoritários se apresentam como soluções rápidas para crises profundas, mas entregam apenas silêncio, medo e perseguição.
Lembrar a ditadura não é revanchismo. É responsabilidade.
Filmes como O Agente Secreto, mesmo sendo ficção, e Ainda Estou Aqui, baseado em fatos reais, cumprem um papel que vai além do entretenimento: impedem o esquecimento. A arte alcança onde discursos políticos muitas vezes não chegam, no afeto, na consciência, na empatia.
Ao escolhermos nossos representantes, não escolhemos apenas programas de governo. Escolhemos se queremos viver sob regras democráticas ou sob a ilusão de salvadores autoritários. A democracia é imperfeita, conflituosa e lenta, mas é o único sistema que garante liberdade e dignidade.
Nesse sentido, os prêmios conquistados pelo cinema brasileiro também são símbolos políticos. Representam a força da nossa cultura, a qualidade dos nossos artistas e a capacidade que temos de transformar dor em reflexão e história em consciência.
Que a fala de Wagner Moura não fique restrita à emoção de uma noite de gala. Que seja um chamado permanente à memória.
Porque sem memória, não há democracia.
Sem democracia, não há futuro.
Viva a cultura brasileira.
Viva a democracia.






