Mercosul–União Europeia: depois de 26 anos, a porteira abriu – mas com manual de instruções

Depois de 26 anos de negociação, quase uma eternidade em tempo de comércio global, Mercosul e União Europeia finalmente assinaram, no último sábado (17), em Assunção, no Paraguai, o Acordo de Associação e o Acordo Interino de Comércio.

No papel, nasce uma das maiores áreas de livre comércio do planeta, com cerca de 720 milhões de pessoas e um PIB combinado que ultrapassa US$ 22 trilhões. No discurso, um marco histórico. Na prática, um acordo grande, complexo e cheio de rodapé.

No que interessa ao bolso, a União Europeia se compromete a eliminar tarifas sobre 92% das exportações do Mercosul, algo próximo de US$ 61 bilhões, além de conceder acesso preferencial a mais 7,5%, o que soma cerca de US$ 4,7 bilhões.

Do outro lado da mesa, o Mercosul vai zerar tarifas de 91% das exportações europeias, incluindo automóveis, em um cronograma que pode chegar a 15 anos. Ou seja: a porteira abriu, mas com cronograma, carimbo e aquela letrinha miúda que o exportador precisa ler com lupa.

Assinar, porém, não significa embarcar amanhã cedo. O texto ainda precisa passar pelo Parlamento Europeu e pelos Legislativos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, além da divisão interna das cotas dos produtos considerados sensíveis — como carne bovina e etanol. Some-se a isso a tradução jurídica de mais de mil páginas e as listas do primeiro ano. O recado é claro: o planejamento começa agora, mas o caminhão não sai hoje.

No agro, café, aves, etanol e açúcar aparecem como os grandes beneficiados. Café torrado e solúvel, hoje com tarifa de 9%, terão redução gradual ao longo de quatro anos. As aves entram com cota livre inicial de 30 mil toneladas, que pode chegar a 180 mil toneladas em 2031. O etanol ganha cota de 650 mil toneladas, sendo 450 mil sem tarifa. Ganho real, sim – mas no ritmo de teco-teco, não de foguete.

Já no campo das indicações geográficas, o acordo exige atenção redobrada. A União Europeia protege nomes tradicionais e o recado é direto: pode produzir aqui, mas não pode vender como “presunto parma”, “conhaque”, “manchego” ou “salame milano”.

O Brasil conseguiu exceções para alguns termos, como parmesão e gorgonzola, mas com regras rígidas de rotulagem.

Branding vira estratégia, não detalhe.

O sabor amargo da política

A assinatura teve, também, um tempero político. O presidente do Paraguai, Santiago Peña, resumiu bem ao dizer que a ausência de Luiz Inácio Lula da Silva deixou um “sabor amargo”. Ao mesmo tempo, fez questão de registrar que o acordo não teria saído sem a liderança brasileira.

Lula preferiu a foto “solo” com Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro, na véspera. O gesto foi simbólico. Ela destacou o protagonismo do Brasil nas negociações, e Lula foi direto ao ponto: o país não quer ficar eternamente restrito ao papel de exportador de commodities.

Quer vender valor agregado e ampliar acordos com Canadá, México, Vietnã, Japão e China. Von der Leyen reforçou a narrativa: comércio não é jogo de soma zero.

Todos ganham. Pelo menos na teoria.

Congresso em modo “fast track”

No Brasil, o recado do Legislativo veio rápido. O presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou que pretende dar tramitação o mais rápida possível ao acordo assim que os trabalhos legislativos forem retomados, no dia 2 de fevereiro. O texto pode, inclusive, ter vigência bilateral se aprovado pelo Parlamento Europeu e pelo Congresso Nacional.

A pressa revela a leitura política: o acordo virou ativo estratégico.

Santa Catarina no jogo grande

Para Santa Catarina, o acordo reacende expectativas concretas. Em 2025, as exportações do agronegócio catarinense para a União Europeia somaram cerca de US$ 765 milhões, alta de 15,4% sobre o ano anterior.

Carnes de frango lideram a pauta, seguidas por madeira, tabaco e móveis. Países Baixos, Bélgica, Espanha, Itália e Alemanha estão entre os principais destinos.

O secretário de Estado da Agricultura, Carlos Chiodini, aponta que “o estado chega a esse novo cenário com credibilidade sanitária, logística estruturada e produtos de maior valor agregado” – combinação rara e valiosa.

Ainda assim, os efeitos práticos devem aparecer apenas a partir do segundo semestre de 2027, após a conclusão dos trâmites burocráticos. Até lá, o desafio será acompanhar de perto as barreiras não tarifárias, muitas vezes mais duras que a própria tarifa.

Na indústria, a leitura é clara. Em nota pública, a Federação das Indústrias de Santa Catarina – Fiesc avaliou que o acordo tem potencial de fortalecer a indústria catarinense e diversificar mercados em um momento de tensão geopolítica e tarifaços.

“Já temos uma relação forte e estabelecida com o bloco, e o acordo vai potencializar as possibilidades de parceria, já que Santa Catarina tem relevância geopolítica e econômica para o Mercosul. O estado é um hub logístico, produtivo, turístico, de serviços e de integração física graças a sua posição geográfica e infraestrutura portuária”, avaliou o presidente, Gilberto Seleme.

Em 2025, a União Europeia superou a China como destino das exportações de SC, com US$ 1,35 bilhão em vendas externas. Santa Catarina tem 14 polos industriais com inserção internacional prontos para disputar esse mercado – de alimentos a máquinas, de madeira a embarcações.

IBGE vê freio e Conab aposta em novo recorde

O IBGE chegou chegando e jogou água fria nas expectativas mais otimistas. Para 2026, o instituto projeta uma safra de 339,8 milhões de toneladas, queda de 1,8% em relação a 2025, puxada principalmente por milho, sorgo e arroz. O diagnóstico passa pela janela de plantio mais apertada e, claro, pelo velho fator que nunca sai do centro do jogo: o clima.

No mesmo dia, 15, a Conab apresentou uma leitura oposta. A estatal estima 353,1 milhões de toneladas na safra 2025/26 – novo recorde histórico, mesmo após ajuste negativo de 1,3 milhão de toneladas em relação à projeção de dezembro. A soja segue liderando, com 176,1 milhões de toneladas, enquanto o milho recua 1,5% e o arroz despenca 13,39%, para cerca de 11 milhões de toneladas.

Duas leituras, dois termômetros. No meio do caminho, o produtor segue fazendo conta, olhando o céu e esperando menos ruído e mais previsibilidade.

Depois da assinatura, começa o jogo de verdade

O acordo entre Mercosul e União Europeia saiu do papel, mas está longe de ser ponto final. A assinatura encerra uma novela diplomática, mas abre uma fase ainda mais complexa: a da implementação, da ratificação política e da adaptação produtiva.

Para o Brasil, o tratado representa uma oportunidade real de reposicionamento internacional – com ganhos para o agro, para a indústria e para a inserção em cadeias globais de maior valor agregado.

Para Santa Catarina, o acordo chega em um momento estratégico, quando o estado amplia sua presença no mercado europeu e consolida sua vocação exportadora, industrial e agroindustrial.

Nada será imediato. As regras são duras, as exigências ambientais e sanitárias são altas e o cronograma é longo. Mas o tabuleiro mudou. Quem entender rápido as novas regras, investir em competitividade e ler o acordo além dos slogans vai sair na frente.

Depois de 26 anos de negociação, a porteira abriu. Agora, não basta comemorar: é preciso saber atravessá-la!

Os colunistas são responsáveis pelo conteúdo de suas publicações e o texto não reflete, necessariamente, a opinião do site Upiara.