Muito além das férias: o que o “pai desesperado” revela sobre a educação atual

O ano de 2026 traz uma série de desafios para a educação brasileira, envolvendo, entre outros aspectos, a implementação do Sistema Nacional de Educação e do novo Plano Nacional de Educação, a chamada “reforma da reforma” do Ensino Médio e o uso cada vez mais intenso de tecnologias no ambiente escolar, incluindo a Inteligência Artificial. Em Santa Catarina, somam-se a esses desafios a consolidação do Sistema Estadual de Avaliação — que impacta diretamente a distribuição dos recursos do ICMS aos municípios —, a implementação das políticas de Educação em Tempo Integral e de Educação Profissional (aprovadas pelo Conselho Estadual de Educação no ano passado), além das persistentes dificuldades relacionadas à infraestrutura escolar e à formação de professores.

Cada um desses temas merece uma análise específica, e certamente será objeto de futuras colunas. No entanto, neste texto, proponho refletir sobre um assunto igualmente relevante: a relação entre família e escola na educação de crianças e jovens no contexto do século XXI.

Durante o período de férias, circulou em um grupo da área da educação do qual faço parte um vídeo do Instagram intitulado “Carta Aberta de um Pai Desesperado”. Nele, um suposto pai “pede desculpas” aos professores e às escolas por não lhes dar o devido valor, alegando que não aguenta mais cuidar dos filhos durante as férias e solicitando, de forma irônica, que a escola reabra o quanto antes — mesmo sem professores — para que ele possa deixar os filhos sob a responsabilidade da instituição. Trata-se, evidentemente, de um vídeo com tom satírico, que busca retratar, de maneira exagerada, as tensões atuais nas relações entre pais, filhos, escolas e professores.

Como profissional da educação, no entanto, confesso que não consegui achar graça no conteúdo. Ao contrário, ele me provocou inquietação e serviu de ponto de partida para algumas reflexões importantes sobre os papéis da família e da escola na formação das novas gerações.

Ao longo das últimas décadas, esses papéis passaram por transformações significativas, impulsionadas por mudanças sociais, econômicas, culturais e demográficas. Embora a Constituição Federal, em seu artigo 205, estabeleça que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, observa-se, na prática, um processo crescente de terceirização da educação por parte de muitos pais, que transferem quase integralmente essa responsabilidade para a escola e para os professores.

Historicamente, o papel do professor esteve centrado no ensino de conhecimentos específicos e na mediação pedagógica do processo de aprendizagem. Atualmente, porém, esse papel vem sendo ampliado de forma preocupante. Cada vez mais, espera-se que o professor atue também como psicólogo, assistente social, nutricionista e, em muitos casos, como substituto das funções parentais. Tudo isso ocorre em um contexto de perda significativa de prestígio social da profissão docente, o que contribui para situações recorrentes de desrespeito, desvalorização e até agressões por parte de estudantes e, não raramente, de seus próprios responsáveis.

Esse cenário pode ser compreendido a partir de, pelo menos, dois fatores principais. O primeiro refere-se à ampliação do acesso à escola por diferentes camadas da população, muitas das quais historicamente excluídas do sistema educacional. Embora esse avanço seja inegavelmente positivo, ele também impôs novos desafios às escolas e aos professores, que passaram a lidar com estudantes marcados por profundas desigualdades sociais e econômicas. Em muitos casos, a escola tornou-se o principal — ou único — espaço de proteção social, evidenciado, por exemplo, pela relevância dos programas de alimentação escolar para crianças e jovens que têm na merenda sua principal fonte diária de alimentação.

O segundo fator diz respeito às mudanças nas relações familiares, especialmente entre pais e filhos, mais visíveis em determinados segmentos sociais. A fragilização do exercício efetivo da parentalidade — que envolve aspectos fundamentais como atenção, afeto, limites, autoridade construída pelo exemplo (e não pela violência), convivência e respeito ao outro — tem levado à transferência dessas responsabilidades para a escola. No entanto, tais dimensões fazem parte do processo de formação do caráter e da personalidade e não podem ser atribuídas exclusivamente aos professores, que não são preparados, em sua formação inicial, para assumir esse papel de forma integral.

Essa sobrecarga tem produzido consequências graves. Pesquisas nacionais e internacionais indicam elevados índices de esgotamento emocional e síndrome de burnout entre professores, resultando em adoecimento, afastamentos e desestímulo à permanência na carreira docente. Exigir que o professor, simultaneamente, ensine — alfabetizando, desenvolvendo o raciocínio lógico-matemático e promovendo a compreensão dos fenômenos naturais e sociais — e substitua a família na formação moral e emocional de crianças e jovens é uma tarefa praticamente impossível.

Isso não significa negar a importância do desenvolvimento de competências socioemocionais no ambiente escolar, algo amplamente discutido no contexto da educação do século XXI. Contudo, tais competências devem ser trabalhadas de forma integrada, em parceria com as famílias, e não como uma responsabilidade exclusiva da escola. A cooperação entre pais e professores é condição essencial para a construção de uma aprendizagem significativa, saudável e duradoura.

Assim, a você que é pai ou mãe, fica o convite à reflexão: em vez de esperar que a escola o substitua, aproxime-se dela. Conheça os professores de seus filhos, dialogue, participe e demonstre, pelo exemplo, o valor que você atribui à educação. Seu filho precisa perceber que a escola é importante, mas também que você é parte ativa e responsável em seu processo de desenvolvimento.

Parafraseando John F. Kennedy: não pergunte apenas o que a escola e os professores podem fazer por você, mas o que você pode fazer pela escola e pelos professores para contribuir para que seu filho se torne uma pessoa bem-educada, ética e feliz.

Com esta reflexão aproveito para desejar um grande 2026 para todos em especial para os pais, estudantes, professores e gestores educacionais. E aproveito para informar que a partir da semana que vem estarei na Universidade de Stanford nos Estados Unidos, onde atuarei até meados de abril como Visiting Scholar. Neste período enviarei as colunas de lá procurando destacar as principais inovações educacionais que a Faculdade de Educação de Stanford esteja desenvolvendo.

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