Não choro por Maduro, nem festejo Trump; estamos todos perdidos

Nicolas Maduro é um pária, o rosto de um regime que fez milhões de venezuelanos tornarem-se refugiados políticos ou alimentares, muitos deles aqui no Brasil. Donald Trump é um megalomaníaco que já deixou claro nenhum apreço a qualquer limite institucional traçado para fazer possível o concerto das nações no mundo moderno. Acreditar que um deles está certo neste momento diz mais sobre quem acredita do que sobre o que vivemos. Estamos todos perdidos.

Não há lágrima a correr pela retirada de Nicolas Maduro do poder. Com 17% das reservas de petróleo do mundo, a Venezuela poderia – com o exagero retórico que uma frase de efeito permite – ser a Arábia Saudita da América do Sul. Uma ditadura banhada em petrodólares. Nem isso Maduro conseguiu – escravo de suas limitações. A proteção de burocratas leais e a eliminação da competência rebelde, as amarras ideológicas e a incapacidade de fazer desenvolvimento com atração de quem sabe desenvolver, fizeram a Venezuela exportar mais fome que petróleo.

Não há alegria diante da forma como Donald Trump buscou resolver o evidente problema que é Nicolas Maduro. O direito internacional colocou limites a ações dos países no exterior para impedir que nações com muito poder pudessem escolher à luz dos próprios interesses quem deve ou não ser punido por suas supostas transgressões. Não é um pacto fácil de ser cumprido, mas permite que existam algumas regras do mundo pós-Hitler em que ainda tentamos viver.

É por isso que não choro Maduro e nem festejo Trump. Eu fico triste que um país abdique da própria riqueza por incompetência e autoritarismo, mas também me entristece que o líder político voluntarista que se propôs a reparar esse mal tenha uma ideia clara sobre como explorar a riqueza e nenhuma sobre o destino do país e de seu povo.

Eu penso no venezuelano de Chapecó, reconstruindo a vida como migrante, torcendo por sua Venezuela. Nessa hora, entre o ditador intransigente da república sulamericana e o presidente megalomaníaco da potência do norte, eu não escolho ninguém. Eu penso que falhamos todos – o Brasil, a América do Sul, todas as nações – nas pressões possíveis e dentro das regras do direito internacional para apear Maduro do poder antes que Trump o fizesse a seu modo. O êxodo venezuelano deveria ter nos emocionado o suficiente. Agora é tarde, estamos todos perdidos em um novo mundo.

COMPARTILHE
Facebook
Twitter
LinkedIn
Reddit