O bebê envenenado. E se o prefeito fosse o Marquito? Por Bruno Souza

Artigo de Bruno Souza, ex-deputado estadual e ex-vereador de Florianópolis

Florianópolis acaba de assistir a um dos episódios mais perturbadores de sua história recente. Um bebê de 11 meses, filho de dois venezuelanos abrigados em um hotel mantido pela Prefeitura, foi envenenado pelos próprios pais. Segundo os laudos médicos, a criança ficou vários minutos sem respirar, sofreu overdose deliberadamente administrada e carrega agora lesões cerebrais permanentes. Terá sequelas severas para o resto da vida.

Uma criança que nem chegou a completar um ano de existência teve o futuro destruído dentro de uma estrutura pública paga pelo contribuinte. Seus pais, agora já identificados como envolvidos com o tráfico de drogas, eram beneficiários diretos do sistema de acolhimento municipal.

O fato é de uma brutalidade que dispensaria qualquer adjetivo. Mas talvez o aspecto mais revelador, não seja apenas o crime em si. É o silêncio.

Silêncio do prefeito, sempre tão presente nas redes, incapaz de dedicar uma única linha à vida inocente destruída.
Silêncio da Secretaria de Assistência Social, tão pronta para discursos sobre “acolhimento humanizado”, mas ausente quando o acolhimento falha de forma irreversível.
Silêncio do CONSEG do Centro, que deveria ser instância de cobrança, vigilância e incômodo, mas escolheu a comodidade da omissão.
Silêncio absoluto da Câmara de Vereadores, a mesma Câmara que encontra tempo e indignação para comentar qualquer tragédia a milhares de quilômetros, mas não encontra palavras para uma criança morta dentro da própria cidade.

Nenhum vídeo. Nenhuma nota. Nenhuma explicação. Nenhuma palavra.

Esse silêncio, além de escandaloso, é perigoso. Até agora não houve nenhum anúncio do poder público, nenhuma cobrança de vereadores, nenhuma manifestação de qualquer pessoa que tenha voz exigindo mudanças nos critérios de acolhimento desse hotel ou, no mínimo, um pedido público de desculpas pelos fatos ocorridos. Nada. Ninguém falou nada. A destruição da vida de um bebê não serviu sequer para provocar uma revisão dessa política pública desastrosa. Os vereadores, lamentavelmente sem exceção, desapareceram quando a realidade cobrou responsabilidade. E o Conselho de Segurança do Centro prefere manter um confortável silêncio, próximo demais da Prefeitura para incomodar. Vão convocar reuniões, fazer discursos bonitos, tirar fotos e sair com a sensação de dever cumprido. Mas, como em outras ocasiões, nada de estrutural será mudado. Não vai ser um bebê que vai romper essa bolha. O que significa que, na próxima semana, no próximo mês, ou em qualquer outro momento, outro bebê pode estar ali, exposto exatamente ao mesmo risco.

O que explica esse silêncio eloquente? A causa tem nome. Marquito.

Obviamente, ele não tem nenhuma culpa nem qualquer responsabilidade direta nos fatos. Mas o silêncio está diretamente ligado à sua derrota nas eleições municipais de 2024. Se o prefeito hoje fosse o ex-candidato do PSOL, Florianópolis inteira estaria em convulsão moral. Haveria protestos, discursos inflamados, textos indignados e acusações diárias. E tudo isso seria legítimo. O caso é grave, escandaloso e exige resposta pública.

Faço aqui uma ressalva necessária. Jamais votaria no PSOL, nem na esquerda, e não acredito por um segundo que a situação estaria melhor com Marquito na prefeitura. Muito provavelmente, a esquerda faria o que sempre faz. Ampliaria a máquina, criaria novas secretarias, multiplicaria cargos e incharias o orçamento. Afinal, a esquerda não é conhecida por reduzir o Estado. O ponto não é a virtude administrativa. O ponto é o constrangimento político.

Muitos vereadores se sentiriam constrangidos em compor a base de um prefeito do PSOL. O constrangimento seria maior do que a vontade de desfrutar de carguinhos no Executivo. Haveria mais vozes dispostas a criticar, mais distância pública, mais ruído, mais pressão. A indignação seria maior porque o preço político de se calar seria maior.

O prefeito é Topazio. Não é o Marquito. Mas governa ampliando a máquina pública, acomodando aliados e organizando uma base confortável. E, além disso, conduz políticas públicas que certamente contam com aprovação da esquerda, especialmente na forma como a cidade vem tratando a questão dos moradores de rua e do “acolhimento” sem exigência, que estabiliza o vício, protege a degradação e amplia o problema.

O resultado é uma cidade onde a vida destruída de um bebê não gera sequer uma nota oficial, mas uma crítica ao governo federal rende discursos, vídeos, stories e plenário cheio.

Deixo claro também que o governo federal merece, sim, ser extensivamente criticado. O que causa indignação é a assimetria moral. O governo federal é criticado com fúria. A barbárie ocorrida na própria cidade é recebida com complacência e silêncio.

Quando questionados, os mesmos de sempre respondem com a fórmula padrão. “A estratégia é diferente”, “estamos trabalhando internamente”, “estamos acompanhando o caso”, “vamos marcar uma reunião”.

E as reuniões vêm.
E os compromissos são assumidos.
E os compromissos não são cumpridos.
E novas reuniões são marcadas.

É um teatro perfeito. Alivia consciências, ocupa agendas e não resolve nada.

Theodore Dalrymple já advertia que o Estado moderno passou a tratar a degradação não como um desvio a ser corrigido, mas como uma condição a ser administrada. E quando a administração da ruína substitui a defesa da ordem, o resultado não é inclusão. É barbárie financiada.

Florianópolis virou laboratório desse modelo. Um sistema que finge acolher, mas estabiliza o vício. Que finge proteger, mas perpetua o crime. Que finge cuidar, mas expõe inocentes, como esse bebê, a ambientes que nenhum ser humano minimamente responsável permitiria.

O bebê envenenado não é um acidente. Ele é o símbolo.

Símbolo de uma política que aprendeu a blindar narrativas, mas desaprendeu a proteger vidas.
Símbolo de uma Câmara que vigia cargos com zelo, mas abandona crianças sem constrangimento.
Símbolo de lideranças que trocaram a virtude da coragem pela comodidade do silêncio, que preferiram a paz artificial ao incômodo necessário de fazer o que é certo.
Para muitos, não falta poder para agir, falta disposição para contrariar. O que importa agora é não tocar nas amizades que rendem favores, fotos, convites e confraternizações. E não será a vida de um bebê que irá perturbar essa ordem confortável.

E se o prefeito fosse o Marquito, isso estaria estampado em todos os muros e timelines da cidade. Como não é, reina o silêncio.

E no silêncio, Florianópolis continua avançando para um futuro onde a barbárie é normalizada e a omissão virou método de governo.

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