O Véio da Havan e a lição que a política insiste em ignorar

Minha ideia para o primeiro artigo do ano era outra. Eu pretendia começar 2026 fazendo uma breve retrospectiva da comunicação, especialmente a política, em 2025.

Para honrar o nome da coluna, queria rever alguns exageros, ruídos, modismos e outros conteúdos fora do tom que marcaram o ano. Material não faltou, muito pelo contrário.

Mas, como quase sempre acontece no nosso meio, fui atropelado pela realidade. Ou, mais especificamente, por um post do Luciano Hang, o Veio da Havan.

No meio do recesso, na praia, enquanto eu organizava mentalmente a tal retrospectiva, fui impactado por um vídeo simples. Uma senhorinha de 91 anos, de Blumenau, dizia que tinha um sonho: trabalhar na Havan. O vídeo chegou ao Luciano Hang, que, é claro, respondeu também em vídeo, dizendo simbolicamente que ela estava contratada.

Pronto. O vídeo bombou, emocionou e gerou conversas e engajamento orgânico. Sem grande produção, roteiro sofisticado ou estratégia mirabolante. Apenas uma boa história.

E aí vem a pergunta cretina, porém inevitável: por que isso funciona tão bem?

A resposta é antiga, óbvia e, ainda assim, ignorada com uma frequência impressionante. Storytelling. No meio de tanta discussão sobre inteligência artificial, algoritmos, novas plataformas e tecnologias emergentes, seguimos subestimando a ferramenta mais poderosa da comunicação.

Peço desculpas por repetir algo que especialistas, consultores e produtores de conteúdo dizem à exaustão. O tal poder do storytelling. Mas faço questão de escrever sobre isso justamente porque é repetido demais e praticado de menos. Contar histórias mexe com a nossa memória afetiva, aguça a curiosidade, ativa emoção e abre portas que nenhum argumento racional consegue abrir sozinho.

É mais fácil persuadir com sentimento do que convencer com argumento. Sempre foi assim e continuará sendo.

Nesse quesito, as marcas estão anos-luz à frente dos políticos. Empresas entenderam que pessoas se conectam com narrativas, personagens e jornadas e estão carecas (como o Hang) de saber que um bom enredo vale mais do que uma pilha de informações técnicas.

Já o nosso mundinho político segue apaixonado por números e estatísticas, como se isso convencesse alguém.

Políticos insistem em tentar convencer quando deveriam primeiro sensibilizar. E não se trata de romantizar o episódio ou transformar o Veio da Havan em guru da comunicação. Trata-se de reconhecer o óbvio ululante: em um mundo saturado de informação, quem conta melhor a história sai na frente. Mesmo quando a história é simples. Ou melhor, especialmente quando é simples.

A retrospectiva do ano na comunicação ainda vai acontecer e fica aqui o spoiler do próximo artigo: 2025 foi o ano em que a comunicação brigou com a realidade.

Este texto, por outro lado, foi propositalmente curto, em respeito ao período de recesso do leitor e ao meu. Às vezes, uma boa história dita no tempo certo ensina mais do que qualquer análise longa.

No fim das contas, entre inteligência artificial e big data, a melhor tecnologia da comunicação continua sendo a mesma de sempre: uma boa história bem contada.

Luciano Hang é um personagem polêmico por suas posições políticas, mas ninguém pode negar que ele entende pra caramba de comunicação. Os políticos que o admiram bem que poderiam tentar aprender com ele.

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